Ela viu o anel primeiro. Viu a mulher ajoelhada à sua frente e o sorriso nos lábios dele. Sete anos a amar aquele homem, a entregar a juventude, a esperar por um pedido que nunca chegava. E ali…

Ela viu o anel primeiro. Viu a mulher ajoelhada à sua frente e o sorriso nos lábios dele. Sete anos a amar aquele homem, a entregar a juventude, a esperar por um pedido que nunca chegava. E ali...

ShiYe viu o anel primeiro. Viu a mulher ajoelhada à sua frente, viu o sorriso nos lábios de ZhouMuchuan, e percebeu que a noiva não era ela. Sete anos. Sete anos a amar aquele homem, a dar-lhe a juventude, a esperar por um pedido que nunca chegava.

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Ele estava a pedir outra em casamento. AnXia, o nome ecoou na cabeça dela como uma faca. — XiaoYe, eu queria ter-te contado mais cedo — ele disse, sem conseguir olhá-la nos olhos. — Mas tinha medo de te magoar.

ShiYe riu, um som seco e amargo. — A minha juventude mais bonita… foram estes sete anos. Ela virou costas e foi-se embora antes que as lágrimas caíssem.

Não queria dar-lhe esse gosto. No dia seguinte, a mãe apareceu no hospital. — ZhouMuchuan é um sem-vergonha — disse, agarrando a mão da filha. — A tua médica disse-me que estás grávida.

Ele sabia? E ainda assim te abandona? ShiYe sentiu o chão fugir-lhe. — Mãe, eu ia contar…

— Tu ias abortar, não ias? — a mãe apertou-lhe os dedos. — Mas isso é o meu neto, ouviste? Não vais fazer nada disparatado.

ShiYe fechou os olhos. Dentro dela, uma vida crescia. Uma vida que não era de ZhouMuchuan. A verdade era mais complicada do que a mãe jamais imaginaria.

Quando a mãe de ShiYe invadiu a empresa de ZhouMuchuan a gritar que ele tinha engravidado a filha e a abandonado, o caos instalou-se. ShiYe só queria desaparecer. Foi então que ele apareceu. — O bebé é meu — disse GuYunShen, plantando-se ao lado dela.

— Algum problema? Toda a gente ficou em silêncio. ShiYe olhou para ele, incrédula. Aquele homem que mal conhecia, que tinha arruinado o próprio casamento para a salvar, estava agora a fingir ser o pai do seu filho.

— Estás louco? — sussurrou ela. — Louco por ti — respondeu ele, sem hesitar. ZhouMuchuan explodiu.

— Tu andavas a trair-me? Durante sete anos estive contigo, e tu… — Tiveste todo o direito de me trocar por outra — interrompeu ShiYe, a voz firme. — E eu tenho todo o poder de te fazer pagar por isso.

Então, ZhouMuchuan, como é que te sentes a usar esse chapéu verde? Ele saiu furioso, prometendo vingança. A mãe de ShiYe arrastou-os para casa. — Vocês os dois vêm comigo — ordenou.

O problema é que GuYunShen estava prometido a outra mulher. AnXia. A mesma que ZhouMuchuan tinha escolhido. Uma teia de mentiras e traições que ninguém queria desembaraçar.

O avô de GuYunShen, um homem inflexível, já tinha marcado o casamento para a semana seguinte. — Recuso-me a casar — disse GuYunShen, pela primeira vez enfrentando o velho. — Então tu e a tua mãe podem sair da família Gu. GuYunShen olhou para o avô, depois para o pai, que sempre o tratara como uma vergonha.

O filho bastardo que nunca deveria ter nascido. — Não vou deixar a minha mãe pagar por mim — disse, a voz baixa mas firme. — Eu percebo. E saiu.

AnXia ficou a vê-lo partir, o coração em pedaços. — A tua noiva não pode ser outra — murmurou ela para si mesma. — Eu não vou deixar. A mãe de ShiYe, encantada com o novo genro, já estava a fazer planos de casamento.

— GuYunShen, que nome bonito — disse ela, radiante. — E muito mais confiável que aquele ZhouMuchuan. Quando é que vão casar? ShiYe tentou travar a euforia.

— Mãe, casamento é uma coisa séria, não se decide assim de repente. Mas a mãe não ouvia. E GuYunShen, encurralado entre a própria mãe e a promessa que fizera, deixou-se levar. — Vamos casar — disse ele, a olhar para ShiYe.

Ela viu nos olhos dele qualquer coisa que não conseguia nomear. Alívio? Medo? Esperança?

AnXia soube do casamento e o mundo dela desabou. — Como é que pudeste? — gritou ela para GuYunShen, no dia da cerimónia. — Tu prometeste-me…

tu disseste… — Eu não te prometi nada — respondeu ele, frio. — Isto foi arranjado pela família. ZhouMuchuan invadiu a igreja.

— AnXia, o que sou eu para ti? Uma piada? — berrou ele. — Deixei a minha namorada de sete anos por ti, e assim é que me pagas?

A confusão instalou-se. A mãe de ShiYe caiu. GuYunShen abandonou a cerimónia para a levar ao hospital. — Se lhe acontecer alguma coisa, encontramo-nos na esquadra — disse ele a ZhouMuchuan, antes de sair.

O casamento foi cancelado. AnXia ficou sozinha no altar, a ouvir os sussurros dos convidados. — A noiva foi abandonada duas vezes no mesmo dia — diziam. Ela não chorou.

Em vez disso, fez um plano. A mãe de ShiYe, no hospital, apertou a mão da filha. — O médico disse que estás bem. Podem ir para casa.

— Mãe… — Não digas nada. Vais casar com o GuYunShen. ShiYe hesitou.

— Mãe, ele… não é o pai do bebé. Um silêncio pesado encheu o quarto. — O quê?

ShiYe contou tudo. A verdade sobre ZhouMuchuan. A noite no bar. O estranho que a salvou.

O plano para enganar toda a gente. A mãe ouviu, o rosto pálido. — Então o bebé… é de quem?

— Não sei — sussurrou ShiYe. — Não me lembro. A mãe fechou os olhos por um longo momento. Depois, suspirou.

— Não interessa. Vais casar com ele na mesma. — Mãe… — Ele já disse que sim.

A mãe dele também concordou. O plano segue em frente. Viveram juntos. Numa casa de um quarto só, com um contrato de coabitação que estipulava três meses.

— Três meses — disse GuYunShen, a mostrar-lhe o papel. — Depois separamo-nos. Incompatibilidade de personalidades. ShiYe leu as cláusulas.

Nenhuma interferência na vida do outro. Cada um com o seu espaço. Nada de cheiros desagradáveis. — Isto é demasiado frio — murmurou ela.

— É só um acordo. Mas as noites na mesma casa, as conversas na cozinha, a forma como ele a olhava quando pensava que ela não estava a ver… tudo aquilo começou a desfazer as barreiras. — Se a minha mãe descobrir que o bebé não é teu, que estivemos a mentir…

ela vai ficar furiosa — disse ShiYe, uma noite. — Não vai descobrir — respondeu ele, a voz suave. Mas a verdade tem pernas. Quando a mãe de GuYunShen soube, o mundo dela desabou.

— Enganaste-me — disse ela, a olhar para ShiYe com os olhos cheios de lágrimas. — Todos estes meses a cuidar de ti, a acreditar que eras a boa notícia na vida do meu filho… e afinal era tudo mentira. — Desculpe — sussurrou ShiYe.

— Eu sei que não há palavras… — Não há, realmente. O avô de GuYunShen exigiu o divórcio. — Isto acaba aqui — disse o velho.

— Amanhã vão ao tribunal. GuYunShen recusou. — Não vou deixá-la. — Então és tão teimoso como o teu pai.

— Prefiro ser teimoso do que cruel. A mãe de ShiYe, depois de saber a verdade, ficou arrasada. — Tu ias abortar — disse, a voz trémula. — Ias matar o meu neto.

— Mãe, desculpa… — Não me peças desculpa a mim. Pede desculpa à criança que vai crescer sem pai. ShiYe saiu de casa da família Gu com o coração partido.

Mas não sozinha. GuYunShen encontrou-a no meio da rua, a chorar. — Vem comigo — disse ele. — Para quê?

A tua família odeia-me. A minha mãe odeia-me. Estou grávida de um homem de quem nem me lembro… — Eu não te odeio.

Ela olhou para ele. — Porque estás a fazer isto? — Porque eu… — ele hesitou.

— Porque eu gosto de ti, ShiYe. Ela sentiu o coração parar. — Não podes. Isto é só uma passagem, uma ilusão…

— E se não for? Ficaram juntos. Os dias passaram. A barriga cresceu.

Numa noite quente de verão, ela sentiu o bebé mexer pela primeira vez. — Moveu-se — disse ela, a respiração presa. GuYunShen aproximou-se, pousou a mão na barriga dela. — Está mesmo a mexer — murmurou ele, os olhos brilhantes.

Nesse instante, qualquer coisa mudou entre eles. Ele começou a falar com o bebé. — Olá — disse ele, a voz baixa. — Quando nasceres, vais ser parecido com a tua mãe, está bem?

Ela é linda. E forte. E a melhor pessoa que já conheci. ShiYe sentiu as lágrimas escorrerem.

— O que é que lhe estás a dizer? — perguntou ela. — Estou a convencê-lo a deixar-me ser o pai dele. — E ele disse que sim?

— Disse que tenho de convencer a mãe primeiro. Ela riu, apesar das lágrimas. Mas o destino tinha outro plano. ZhouMuchuan soube que ShiYe estava grávida.

E convenceu-se de que o bebé era dele. — O bebé é meu — disse ele, aparecendo à porta de ShiYe. — Vamos ficar juntos. — Estás louco?

Depois de tudo o que me fizeste? — Eu errei. Mas agora quero fazer o que é certo. A criança precisa do pai biológico.

Antes que ShiYe pudesse responder, GuYunShen apareceu. — Ela já tem um pai — disse ele, a voz fria. — Tu não és o pai. — Sou o homem que a ama.

Isso é suficiente. ZhouMuchuan riu-se. — Vais criar um filho que não é teu? Que idiota.

— Prefiro ser idiota do que cruel. A cena continuou. A mãe de ShiYe chegou. A mãe de GuYunShen também.

No meio da confusão, ShiYe sentiu o mundo a fechar-se à sua volta. — Chega — disse ela, a voz firme. — Basta. Olhou para ZhouMuchuan.

— Tu não és o pai. O pai é este homem aqui — apontou para GuYunShen. — E mesmo que não fosse biologicamente, ele é o pai que a minha criança vai ter. Tu perdeste esse direito quando me trocaste por outra.

ZhouMuchuan ficou vermelho de raiva. — Vais-te arrepender. — Não vou. Ele saiu, furioso.

Naquela noite, ShiYe e GuYunShen ficaram sozinhos. — O que vai ser de nós? — perguntou ela. — O que quiseres que seja.

— Tenho medo. — Eu também. Ela riu, baixinho. — Tu?

Com medo? — De te perder, sim. Ela apoiou a cabeça no ombro dele. — Então não me percas.

Nove meses depois, a bebé nasceu. Olhos azuis como os de GuYunShen. — É tua — sussurrou ShiYe, a vê-lo segurar a criança nos braços. Ele olhou para a menina, depois para ela.

— Não interessa. Ela é nossa. A mãe de GuYunShen, finalmente, rendeu-se. — A bebé é linda — disse ela, a pegar na neta.

— Desculpe, mãe — disse ShiYe. — Já chega de desculpas. O que importa é que a família está junta. No verão seguinte, GuYunShen e ShiYe foram a uma pequena aldeia.

— O que estamos aqui a fazer? — perguntou ela. — Comprar melancias. Ela riu-se.

— Estás a gozar? — Não. Estou a falar a sério. Ele parou o carro à entrada da aldeia e desceu.

— Volto já — disse ele. — Vou contigo. Caminharam juntos por um caminho de terra batida, até uma banca de fruta. Uma menina de cabelo escuro, olhos vivos, olhou para eles.

— Tio, quer comprar melancia? GuYunShen ajoelhou-se à frente dela. — Mãe — gritou a menina, a correr para dentro de casa. — Mãe, alguém quer comprar melancia!

ShiYe sentiu o coração apertar. E então viu-a. Uma mulher, a sair da porta. Grávida.

A mesma barriga. Os mesmos olhos. — Meu Deus — murmurou ShiYe. A mulher parou, a vê-los.

GuYunShen levantou-se lentamente. — AnXia — disse ele. A mulher sorriu, um sorriso triste. — GuYunShen.

Há quanto tempo. O vento soprou entre elas, levando as palavras. ShiYe olhou para a barriga de AnXia, depois para GuYunShen, e percebeu que a história não tinha acabado.

Estava apenas a começar.