Girei a chave na fechadura com a maior calma do mundo. Atrás de mim, alguns tios e amigas da minha mãe esperavam ansiosos. Eu tinha acabado de chamá-los para me ajudar a fazer uma grande surpresa de aniversário para ela. Assim que escancarei a porta, o sorriso dos convidados derreteu.

Lá estavam eles: o meu marido com as calças nos joelhos, agarrado à minha mãe contra a parede. Levei as duas mãos ao rosto, assustada, e gritei para o corredor inteiro ouvir: «Meu Deus, mãe, Levi, mas o que vocês estão a fazer? »
Os dois perderam a cor ao darem de cara com a nossa plateia. Mas calma que piora.
Deixa-me voltar um pouco e contar como chegámos a este show de horrores. Eu sou a Lorena, tenho 25 anos, recém-formada em odontologia. Trabalho o dia inteiro numa clínica em Botucatu. Mas a verdadeira raiz dos meus problemas tem nome: Soraia, a minha mãe.
Quando o meu pai morreu, eu tinha uns 10 anos. A minha mãe não perdeu muito tempo de luto. Engatou um romance com um empresário rico, casou-se, e ele não queria filhos por perto. Ela escolheu a conta bancária, empacotou as minhas coisas e mandou-me morar com a minha avó paterna, a vozinha.
Soraia foi viver como rainha, mandava um salário mínimo por mês para a minha avó cuidar de mim. O marido empresário teve um infarto fulminante e bateu as botas. Para a minha mãe foi como ganhar na lotaria. Herdou tudo, vendeu as empresas, torrou a fortuna em viagens, plásticas, lipoaspiração e botox.
O dinheiro acabou, o padrão despencou, ela voltou a ser classe média comum. A vozinha criou-me como filha. Anos com pouco contacto entre mim e a minha mãe. Até que aos 23 anos conheci o Levi, dois anos mais velho.
Começámos a namorar, ficámos noivos. Senti aquele desejo infantil de partilhar a novidade e convidei a minha mãe distante para a festa de noivado. Ela foi, conheceu o Levi, conversaram bastante. Fiquei feliz por achar que ela aprovava algo na minha vida.
A partir daí, Soraia começou a fazer-se presente. Dizia ser a mãe arrependida, tentando recuperar o tempo perdido. Convidava-nos para almoçar na casa dela o tempo todo. Num desses almoços, o Levi percebeu que a pia da cozinha estava a pingar e ofereceu-se para consertar.
Eu olhava e pensava: ele está a tentar ser o melhor genro possível. O problema é que a casa dela virou um canteiro de obras. Toda semana era uma porta a ranger, um chuveiro queimado, uma lâmpada a piscar, uma rachadura na parede. Ela vivia a convocar o Levi para bancar o marido de aluguer.
Eu achava lindo vê-lo tão prestativo. Mal sabia que tipo de rachadura ele estava a mexer por lá. Seis meses depois do noivado, casámo-nos. O casamento foi lindo.
A vozinha na primeira fila, a Soraia a fazer pose num vestido super decotado, marfim, muito mais caro e bonito que o meu. Quem entrasse na festa acharia que ela era a noiva. A vozinha nunca a engoliu. Passou a festa inteira a fazer piadinhas ácidas, até que me chamou num canto: «Minha filha, dá-me só um sinal que a avó tropeça sem querer em cima da tua dadora de óvulos para batizar aquele vestido.
» Segurei a gargalhada e tirei-lhe a taça. Hoje arrependo-me de não a ter deixado. Depois da lua de mel, fomos morar numa casa que a vozinha mantinha de aluguer e cedeu sem cobrar nada. A vida seguiu.
Eu terminei a faculdade, trabalhava dobrado na clínica. A Soraia continuava cada vez mais próxima, marcava presença quase toda a semana. O tempo voou. Chegou o nosso aniversário de um ano de casados.
Economizei cada centavo e comprei um smartwatch edição limitada que o Levi vivia a cobiçar. Na sexta-feira, um dia antes, trocámos os presentes. Ele abriu a caixa, os olhos brilharam, abraçou-me forte, disse que eu era a melhor esposa do mundo. Em troca, entregou-me um envelope com um voucher para um day use num spa.
«Já que eu não vou estar aqui no nosso aniversário, amor, quero que aproveites o dia para relaxar», disse com a maior cara de marido apaixonado. Ele tinha de viajar a trabalho para São Paulo no sábado. No sábado de manhã, acordei e o Levi já tinha ido. A minha vontade de ir sozinha para um spa era zero.
Resolvi ir ao shopping comprar o presente de aniversário da Soraia. Depois de comprar um lindo lenço de seda, sentei na praça de alimentação e mandei-lhe uma mensagem a perguntar o que ela faria de bom naquele dia. Ela respondeu em menos de cinco minutos: «Vou ficar em casa, filha. Estou a terminar de ver as coisas da minha festa de 50 anos.
»
Tive uma ideia que me pareceu brilhante. Comprei um combo de sushi, a comida preferida dela, e dirigi até à casa dela para fazer uma surpresa. Estacionei, peguei as sacolas, toquei à campainha. Ninguém atendeu.
Toquei de novo. Silêncio. Liguei para ela, fiquei parada na porta e ouvi o toque do celular dela a soar lá dentro. Após muita insistência, a porta abriu-se apenas uma fresta.
Soraia apareceu segurando a porta, vestindo um roupão de seda, com uma toalha na cabeça e o rosto extremamente avermelhado. Parecia visivelmente irritada. «Lorena, o que estás a fazer aqui? »
«Como disseste que ias passar o dia a ver as coisas da festa, achei que podia ajudar.
O Levi foi viajar e não queria ficar sozinha. Trouxe um presente e a tua comida preferida. » Sem esperar resposta, empurrei a porta e entrei. Ela veio correndo atrás de mim.
«Podes deixar essas coisas aí na cozinha», disse apressada, a tentar guiar-me. Fui até à bancada. Os meus olhos bateram direto na pia: duas taças de cristal com restinhos de champanhe. Olhei para o relógio da parede.
Eram 11:15 da manhã. «Bebendo champanhe antes do meio-dia, mãe? Comemoração antecipada? » Ela desviou o olhar.
«Ah, isso. Ontem à noite recebi uma amiga aqui e bebemos um pouco. »
Entreguei a sacola com o presente. Ela tirou o lenço, a cara de deceção foi nítida.
Deu um sorriso forçado: «Ah, que lindo, amei. Obrigada. » Largou o lenço em cima de uma cadeira. «Espera aqui que vou ao quarto vestir-me.
»
Enquanto ela sumia no corredor, fui para a sala. Na mesinha da entrada, ao lado da porta, havia um relógio, um smartwatch de pulseira preta. O meu coração deu um pulo. Caminhei até lá, peguei no relógio.
Era o exato mesmo modelo, a mesma edição limitada que eu tinha dado ao Levi na noite anterior. Senti um aperto no peito. Quando olhei mais de perto, notei um detalhe: a tela tinha um risco profundo no canto superior direito. Ouvi os passos da minha mãe a voltar.
Larguei o relógio no mesmo lugar e fingi estar a olhar para um quadro. Uma pulguinha instalou-se atrás da minha orelha. Era um relógio masculino idêntico ao que eu dei ao Levi. Mas podia ser coincidência.
O relógio dele era novinho, não tinha aquele risco. Soraia voltou vestida, a arranjar o cabelo com pressa. Olhou-me com cara de falsa tristeza: «Filha, sinto muito, mas não vai dar para almoçarmos juntas. Acabei de receber uma mensagem do buffet e preciso correr lá para resolver uns problemas da festa.
» Ofereci-me para ir com ela. «Não precisa», cortou rápido. «Uma amiga que não vejo há muito tempo vai comigo. A gente precisa conversar.
»
«Ok, sem problemas. Então vou indo. » Dirigi-me à porta. Ela ainda disse: «Ah, Lorena, só mais uma coisa.
No dia da festa apareçam uma hora mais cedo, ok? O Levi disse que vocês podiam ir para ajudar a organizar os últimos detalhes. » Franzí a testa. «Ué, quando falaste com o Levi?
» Ela piscou, atrapalhada, gaguejou: «Ah, acho que falei com ele na semana passada, quando ele veio aqui depois do trabalho para arrumar aquela lâmpada da garagem. » Depois apressou-me para ir. Saí, entrei no carro, fiquei sentada em silêncio uns cinco minutos. Comecei a cruzar informações.
O Levi não me tinha contado que foi a casa dela na semana passada. Lembrava-me perfeitamente: um dia ele disse que precisava ficar para uma reunião de última hora, chegou tarde, tomou banho a correr. Por que esconderia? A desconfiança instalou-se.
Para tirar o peso, mandei mensagem ao Levi. Cinco minutos depois, ele respondeu com uma selfie: sorrindo no meio de um salão de convenções, com várias pessoas ao fundo. Respirei aliviada. Liguei o carro e voltei para casa, a rir da minha loucura.
Domingo às sete da noite, o Levi abriu a porta, arrastou a mala, reclamou da viagem exaustiva. Decidimos sair para jantar perto de casa para comemorar o aniversário atrasado. No meio do jantar, ele gesticulou com a mão esquerda. A luz do restaurante bateu direto no pulso dele.
Eu parei de mastigar. Os meus olhos grudaram no smartwatch novo. Bem ali, no canto superior direito da tela, brilhava um risco profundo e idêntico ao que eu tinha visto na casa da minha mãe. «O que aconteceu com a tela do teu relógio novo?
» perguntei, sentindo o estômago a despencar. Ele olhou para o pulso, recolheu o braço rapidamente, deu uma risadinha nervosa: «Ah, isso. Bati hoje de manhã na quina de uma mesa lá no hotel. Fui idiota, mas vou mandar arrumar amanhã mesmo.
»
Não pisquei. Concluí ali mesmo, a mastigar a comida que parecia areia: aquele relógio na casa da minha mãe era, sem dúvida, o dele. Eles estavam a ter um caso. Não o confrontei.
Dei o meu melhor sorriso, concordei com a cabeça, engoli em seco. Pratiquei a mais pura falsa conformidade. Por dentro já tinha tomado uma decisão. Assim que ele pegasse no sono, ia descobrir a verdade.
Ele dormiu. Com a precisão de quem faz uma cirurgia, deslizei a mão por baixo do travesseiro dele e puxei o celular. Usei a digital. Sentei no chão da casa de banho, fechei a porta.
O coração batia forte, mas a mente estava fria e calculista. Abri o WhatsApp. Não precisei procurar muito: o contacto da minha mãe estava salvo como “sogrinha”. As palavras na tela confirmaram tudo.
Chorei, mas de pura raiva. A última conversa era de duas horas antes, pouco de ele se ter deitado. «Já cheguei do jantar e está tudo normal. Ela não desconfia de absolutamente nada.
» Levi mandou com um emoji de piscadela. Minha mãe respondeu: «Que alívio! Juro que no sábado achei que a Lorena tinha sacado alguma coisa. » E ele: «A Lorena é lerda, Soraia.
Ela confia cegamente em mim. A coitada acreditou naquela foto da convenção que fiz com inteligência artificial. »
Rolei para cima. Troca de fotos indecentes, declarações: ele dizia que ela era a mulher que sempre sonhou, que cruzar o meu caminho foi uma bênção só porque o levou até ela.
A data do início deixou-me paralisada: tudo começou dois meses depois da festa de noivado. Enquanto eu lavava a louça na cozinha, eles estavam a pegar-se em algum canto. Gravei a tela do celular dele com o meu. Desliguei, coloquei o aparelho de volta, deitei-me.
Não dormi. Passei a noite a planear o próximo passo. Na segunda-feira, antes do trabalho, fui a casa da vozinha. Sentei na cozinha, abri o vídeo, mostrei tudo.
Ela largou o bule em cima da pia, pálida, depois o rosto ficou vermelho de raiva. «Eu vou lá agora arrancar aquele aplique mal feito da cabeça da Soraia com as minhas próprias mãos. » Gritou, batendo na mesa. «O que vais fazer, minha filha?
»
«Vó, só pedir o divórcio é muito fácil para eles. Quero que os dois sejam humilhados. Quero que a máscara dela caia de um jeito que nunca mais consiga colar de volta. » A vozinha olhou-me, um sorriso quase perverso apareceu.
«Agora arrependeste-te de não me ter deixado jogar vinho no vestido dela no dia do teu casamento, não é? » Riu-se. «Quem sabe a senhora não faz exatamente isso na festa dela. Ela quer uma festa de cinema para os 50 anos?
Vai ter o papel principal no filme de terror dela. »
Contei-lhe o plano: no meio da festa, quando passassem a retrospetiva no telão, eu colocava os prints das conversas e as fotos. A vozinha bateu palmas: «É o requinte da humilhação. Ela nem me mandou convite, mas vou de penetra só para ver o show.
»
Na terça-feira, recebi uma mensagem da Soraia: «Já foste buscar aquele vestido que escolhi para usares na minha festa? » Ela tinha-me dado dinheiro para comprar um modelo específico, horrível, de cor apagada, para eu ficar feia. Comprei, mas guardei a etiqueta. No dia seguinte, fui à loja, troquei pelo vestido mais deslumbrante, decotado, impecável, de cor dourada – exatamente a cor que ela passou meses a avisar que só ela iria usar.
Durante a semana, fiz de conta. Fui a esposa de sempre. Ajudei-o a escolher o terno para a festa. No sábado, marquei salão para cedo.
Sugeri que ele fosse na frente para ajudar a minha mãe. Ele nem discutiu, os olhos brilharam. Passei a tarde no salão. Maquilhagem impecável, cabelo que chamasse a atenção.
Voltei a casa, vesti o dourado. Olhei-me ao espelho e vi uma mulher prestes a botar fogo no próprio mundo, mas que ia sair sem nenhuma queimadura. Passei na casa da vozinha, ela estava maravilhosa com um tailleur vinho. Entrámos no carro e seguimos para o salão de festas.
Chegámos 10 minutos antes do horário oficial. A decoração extravagante. Assim que pisámos o salão principal, pareceu que as pessoas pararam de falar. O Levi estava perto do bar.
Quando me viu, quase derrubou o copo. Olhava deslumbrado. Mas a Soraia, ao lado dele, o rosto contorceu-se de pura raiva. Ela achava que estava a abafar naquele vestido dourado, mas o meu apagava o dela de forma cruel.
Ela veio marchando na minha direção com o Levi atrás. «Lorena! Cadê o vestido que eu escolhi para ti? Que palhaçada é essa de vires de dourado?
» Abri um sorriso cínico: «Ah, mãe, aquele vestido era sem graça. Muito apagadinho. Achei melhor trocar por algo mais a minha cara. E isto não é dourado, é amarelo ouro.
»
Ela estava prestes a gritar, mas o olhar cruzou com a mulher ao meu lado. «E o que esta velha está a fazer aqui? Não convidei a tua avó para a minha festa. » A vozinha arrumou a bolsa no ombro, sem perder a pose: «Ah, Soraia, não podia faltar no aniversário de 50 anos da minha ex-nora.
Fiz questão de vir para te homenagear. Parabéns, que festa linda. »
O gerente do salão aproximou-se, perguntou se precisavam de algo. Olhou para mim, depois para o meu vestido.
O Levi, a bancar o marido sortudo, passou o braço pela minha cintura: «Esta é a minha esposa, Lorena, a filha da aniversariante. » O gerente paralisou um segundo, olhou para o Levi com uma cara de quem tinha visto algo a mais nos bastidores. «Oh! Um prazer conhecê-la, Lorena.
» E saiu quase a correr. Sentámo-nos à mesa. A vozinha fez questão de se sentar ao lado do Levi e, sem querer, pisou-lhe o pé com a ponta da bengala umas 10 vezes na primeira hora. Os convidados chegavam, passavam pela nossa mesa, paravam para me elogiar.
«Nossa, Lorena, como cresceste e estás linda! » «Estás a ofuscar a festa inteira. » A cada elogio, via um vinco novo de raiva na testa da minha mãe. A festa rolou umas duas horas.
O celular do Levi acendeu em cima da mesa. Ele olhou, deu um sorrisinho, levantou-se: «Amor, vou dar uma volta para esticar as pernas. Queres alguma coisa do bar? » Beijou o topo da minha cabeça.
«Não, querido. Obrigada. » Fiquei de olho. Ele caminhou pelo salão, parou perto do bar onde a Soraia enchia a taça, falou qualquer coisa ao ouvido dela.
Os dois deram uma volta disfarçada, andaram pelos cantos, até sumirem no corredor que dava para a sala privativa. Eu sabia que aqueles salões caros tinham uma sala privativa com banheiro, espelho enorme e um sofá confortável. O cenário perfeito. Virei-me para a vozinha: «Vó, acho que eles deram uma escapadinha para a sala privativa.
Se for isso, a exposição vai ser mil vezes melhor do que no brinde. » Levantei-me, caminhei devagar até ao corredor. Escuro e vazio. A fresta por baixo da porta mostrava luz acesa.
Colei o ouvido. O som era inconfundível: estalo de fivela a abrir, zíper a descer, gemidos abafados. O meu sangue gelou, mas a mente estava a mil. Voltei para o salão e dei de cara com o gerente.
Pedi-lhe a chave da sala privativa, com a voz mais doce: «A minha mãe pediu para eu buscar uma coisa urgente lá, mas ela perdeu a chave. » Ele entregou-me na hora. Agradeci, voltei para a mesa da vozinha. «O show vai começar, vó.
» Os olhos dela brilharam. No caminho de volta para o corredor, fui parando cirurgicamente os parentes mais fofoqueiros, as amigas dela. «Pessoal, podem ajudar-me a buscar um presente na sala privativa? Quero fazer uma surpresa para a minha mãe.
» Todos foram atrás de mim, ansiosos. Parei em frente à porta, coloquei a chave na fechadura devagar, sem ruído. Girei e abri a porta com tudo. A cena foi exatamente o pior pesadelo, ao vivo e a cores.
O Levi com as calças nos joelhos, a segurar a minha mãe no ar, prensada contra a parede. A Soraia com o vestido dourado caríssimo todo repuxado para cima, as pernas cruzadas na cintura dele. Um gemido morreu na garganta assim que percebeu a porta aberta. Caos absoluto.
«Ai, meu Deus! » uma tia gritou, a derrubar a taça. A Soraia deu um grito agudo de terror. «Mãe, Levi, mas o que vocês estão a fazer?
» Berrei por cima do burburinho, a fingir desespero total, lágrimas de teatro a escorrer. O susto foi tão grande que o Levi virou de supetão, soltou as pernas da Soraia no ar. Ela despencou de mais de um metro de altura e caiu no chão de rabo, com as pernas arreganhadas, um estrondo seco. Horrou de dor, o rosto contorcido, a tentar puxar o vestido para baixo.
«Seu merdinha! Deixaste-me cair! » berrou do chão, a perder qualquer classe. No meio da gritaria, ouvia os estalos das tias a bater nos tios.
«Para de olhar, seus tarados! » Cobriam os olhos dos maridos, que não conseguiam desviar o olhar da aniversariante exposta. As amigas dela estavam paralisadas, bocas abertas em O perfeito. O Levi, pálido como um fantasma, tentou subir a calça às pressas.
Enrolou-se, perdeu o equilíbrio, caiu de joelhos e bateu com a cara direto no chão da sala, estatelado com a bunda peluda virada para cima. Levantou num pulo vermelho de vergonha, a puxar a calça de qualquer jeito. «Lorena, amor, por favor, não é o que parece. »
«Não é o que parece?
» Gritei, a apontar para a minha mãe no chão. «Estavas a segurar a minha mãe no ar, sem calças, no meio da sala privativa. Então porquê, senhor Levi? »
A gritaria atraiu quem estava nas mesas mais próximas.
O corredor encheu de gente: família, amigos, o gerente, os garçons. O Levi suava frio, apontou para a porta do banheiro: «Eu estava a usar o banheiro ali e a tua mãe engasgou-se com um salgadinho. Saí a correr para a desengasgar, foi tudo tão rápido que nem percebi que estava com as calças abaixo. Estava a salvar a vida da tua mãe, Lorena!
»
A multidão riu. «Salvando a vida dela? Toma vergonha nessa tua cara, seu canalha. » Aumentei o tom.
Soraia gritou lá do fundo, em pânico: «Alguém chame uma ambulância! Não consigo mexer as pernas! »
Virei-me para ela: «E tu, mãe? A trair a própria filha com o genro na tua festa de 50 anos?
» Ela perdeu a compostura, ignorou a plateia, virou um bicho: «Sua maldita! O que vieste cá fazer? Esta sala é privativa, não tinhas o direito de entrar e arruinar a minha festa! » «Arruinar a tua festa?
Tu arruinaste o meu casamento. » Apontei o dedo. «Queres saber? A culpa é toda tua.
O teu marido procurou-me porque não serves nem para o satisfazer na cama. Eu não tenho culpa de ser melhor do que tu, de ele preferir uma mulher madura a uma pirralha idiota. » O salão inteiro soltou um «oh» em coro. O Levi gritou para salvar a pele: «Cala a boca, Soraia!
Foi ela, Lorena. Ela seduziu-me, vivia a chamar-me para ir a casa dela. Eu sou a vítima aqui. » «Vítima o teu rabo!
» Soraia gritou do chão. «Não coloquei uma arma na tua cabeça para abaixares as calças, seu cretino! »
«Vocês merecem-se. Não quero mais nenhum dos dois na minha vida.
» Virei costas. Foi então que a vozinha abriu caminho no meio da multidão, a bater a ponta da bengala no chão de mármore. Parou na frente da porta, olhou para a Soraia no chão e soltou: «Não sei porque não estou surpresa. Esta daí não tem escrúpulos há muito tempo.
Ela traiu o meu filho com o marido de uma amiga dela. »
O silêncio foi mortal. Olhei para a vozinha, completamente apanhada de surpresa. As amigas da Soraia viraram-se lentamente para os próprios maridos.
«Marido de qual amiga? » uma exigiu saber. Os homens começaram a gaguejar, a suar frio. A desconfiança foi plantada.
As amigas começaram a xingar a Soraia de tudo, disseram que ela nunca foi confiável, e foram embora da festa a puxar os maridos pelo colarinho. A Soraia chorava desesperada, a ver as únicas amigas que tinha a virarem-lhe as costas no dia da sua festa de meio século. A sirene da ambulância ecoou lá fora. O gerente começou a afastar as pessoas para abrir passagem aos paramédicos.
Olhei para aquele circo a pegar fogo, respirei fundo. «O show acabou para nós, vó. Vamos embora. » Ofereci-lhe o braço.
Caminhámos pelo corredor de volta ao salão principal. A festa tinha acabado. Muita gente já estava perto da porta de saída, a encher bolsas com docinhos e salgados antes de ir. Conforme passava, as pessoas murmuravam: «Foi horrível o que a Soraia te fez.
Foste muito forte. » Enquanto os socorristas entravam com a maca, a vozinha parou na frente da mesa do bolo. Com uma naturalidade assustadora, abriu a bolsa, tirou um saquinho plástico e começou a encher de doces finos. «Vó, estás doida?
» sussurrei, a puxar-lhe o braço. «Não vou experimentar estes docinhos maravilhosos? Vou levar para nós duas. » Ela colocou quatro de cada tipo.
Não aguentei. No meio daquele caos, dei uma gargalhada sincera. Quando entrámos no carro e dei à partida, a adrenalina começou a baixar. Olhei para a vozinha no banco do passageiro, já a enfiar um doce na boca.
«Vó, aquilo que disse sobre a Soraia ter traído o meu pai com o marido de uma amiga? Quem era? » Ela engoliu o doce, limpou o canto da boca, olhou pela janela e soltou uma gargalhada gostosa: «Não faço a menor ideia, minha filha. Inventei aquilo na hora só para ver o circo pegar fogo.
E não é que funcionou? »
Rimos tanto que os olhos se encheram de lágrimas. Fomos direto para minha casa. Assim que estacionei, liguei para um chaveiro 24 horas.
Não ia passar mais um dia com o risco de aquele traste entrar na minha vida. Enquanto o chaveiro trocava o miolo da porta, eu e a vozinha sentámo-nos na cozinha. «Vou entrar com o pedido de divórcio na segunda-feira de manhã. Ele nunca mais pisa nesta casa.
» A vozinha segurou a minha mão: «Minha filha, não precisas de ficar aqui sozinha. A minha casa é tua. »
O meu celular tocou. Era o Levi.
Atendi e coloquei no altifalante para a vozinha ouvir. «O que queres, Levi? » Ele choramingava: «Lorena, amor, escuta-me. Vim com a ambulância para o hospital.
A tua mãe caiu feio, partiu o quadril. Vai precisar de cirurgia urgente e de muitos cuidados. O hospital está a pedir a assinatura do parente mais próximo para internar. »
Encostei-me na cadeira, de braços cruzados: «Bom, Levi, não sei quem é o parente mais próximo dela.
Pelo que sei, a Soraia nem filhos tem. » Silêncio. «Lorena, não podes fazer isso. Ela é a tua mãe.
Vai precisar de alguém para cuidar dela, dar banho, trocar fralda. » «Ué, ela não é a tua namorada? Cuida tu dela. E deixa-me contar-te uma novidade: já não moras aqui.
Amanhã de manhã, ponho todas as tuas coisas em sacos do lixo e mando entregar na casa da tua mãe. E na segunda-feira dou entrada no divórcio. »
«Lorena, não faças isso. Eu amo-te.
Foi um erro. A tua mãe seduziu-me. » Peguei no celular da mesa e desliguei-lhe na cara. No domingo de manhã, cumpri a promessa.
Comprei os maiores sacos de lixo preto que encontrei e soquei lá todas as coisas do Levi. Antes de mandar o carreto entregar, liguei para a mãe dele, dona Marta, que sempre foi uma santa. Contei tudo, do caso, dos meses de traição, do flagra. Ela chorou de vergonha: «Lorena, minha filha, perdoa-me.
Juro que não criei este menino para ser um canalha. Na hora que ele puser os pés nesta casa, vai apanhar de cinta até aprender a respeitar mulher. » Agradeci e desliguei, ainda mais leve. Na segunda-feira, dei entrada no divórcio.
O advogado garantiu que seria rápido, sem bens para dividir. Nessa semana, fiz as malas e mudei-me para casa da vozinha. Pus a casa onde morava para alugar. Um ano passou.
Eu e a vozinha, já melhores amigas, continuamos a morar juntas e a divertir-nos. A minha vida profissional descolou: entrei como dentista associada, tripliquei a renda. A paz que tenho hoje não tem preço. O divórcio saiu rápido.
Acho que foi a dona Marta que obrigou o Levi a aceitar tudo. Mas o karma fez um trabalho muito melhor que qualquer advogado. Pelos parentes da minha mãe, soube que Soraia teve uma fratura feia no quadril, passou por várias cirurgias, meses de cama, hoje só anda com andador. O ar de rainha foi embora junto com o dinheiro que gastou quase todo em fisioterapia e remédios.
O pior foi o Levi. Dona Marta cumpriu a promessa, deu umas cintadas nele e não o deixou morar lá. Ele foi obrigado a ir viver com a Soraia e a cuidar dela. Mas o bonitão, que se achava génio, descobriu que dar banho, limpar a bunda e aguentar o mau humor de uma mulher em recuperação não tem nada de glamoroso.
Não aguentou o tranco, convenceu Soraia a contratar uma cuidadora. Adivinha? Soraia flagrou o Levi a «desengasgar» a cuidadora também dentro de casa, no quarto de hóspedes. Ele estava de novo sem calças.
Coincidência? Quando Soraia descobriu, deu um escândalo e expulsou os dois. A cuidadora ainda entrou com um processo trabalhista contra ela. Com o processo, as despesas, o dinheiro acabou.
Soraia foi obrigada a vender a casa enorme para pagar dívidas. Hoje, a rainha mora de aluguel num bairro afastado, completamente sozinha, a receber um benefício do governo para sobreviver e pagar a nova cuidadora. Hoje olho para trás e agradeço por ter sido enxerida o suficiente para reparar naquele relógio riscado na mesa da Soraia. Quando descobri a traição, morri de raiva por ter gasto tanto dinheiro naquele presente para o Levi.
Mas pensando bem, foi o melhor dinheiro deitado fora de toda a minha vida. Foi exatamente aquele relógio caro e arranhado que me libertou daquele hospício. Ah, e sobre o voucher do spa?
A vozinha adorou a experiência.


