No momento em que o vi, o chão pareceu desaparecer. Camila apertou o vestido verde-botelho, tentando manter a pose de chefe de marketing que acabara de conquistar. Do outro lado do salão, Renzo…

No momento em que o vi, o chão pareceu desaparecer. Camila apertou o vestido verde-botelho, tentando manter a pose de chefe de marketing que acabara de conquistar. Do outro lado do salão, Renzo...

Camila alisou o vestido verde‑botelho enquanto atravessava o salão principal do hotel Alameda Real. As lâmpadas de cristal espalhavam reflexos dourados sobre os convidados. Era a sua primeira aparição oficial como chefe de marketing do Grupo Aman, uma das firmas mais prestigiosas da Cidade do México. Segurava uma copa que mal tinha provado quando o viu: Renzo Cabral, o ex‑namorado, a rir com um grupo de empresários do outro lado do salão.

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A mesma segurança que um dia a conquistara e depois a fizera sentir‑se invisível. — Que cara é essa? — Renata Ibarra chegou ao lado dela com duas copas novas. — Está aqui.

O Renzo. — O mesmo que dizia que eras demasiado sensível para o mundo corporativo? — Renata arqueou as sobrancelhas. — Pois que se lixe.

Tu conseguiste o posto sem ele. Isso chama‑se karma. Camila soltou uma risada nervosa. A orquestra mudou para um ritmo mais animado e ela viu Renzo avançar na sua direção.

— Vem para cá — sussurrou em pânico. — Não quero que me veja sozinha. Olhou à volta com desespero até reparar num homem alto, de costas, que observava o salão com calma. Aproximou‑se sem pensar duas vezes.

— Dançavas comigo? — murmurou com a voz trémula. — O meu ex está a olhar e preciso de parecer ocupada. Por favor.

O desconhecido virou‑se. Ela ficou sem palavras. Tinha uns olhos azuis profundos, um olhar firme e tranquilo. — Será um prazer — respondeu com voz grave.

— Não façamos o teu ex esperar. Camila sentiu um alívio imediato ao pegar na mão dele e deixar‑se guiar para a pista. Conseguiu ver a expressão confusa de Renzo e uma sorrisa travessa escapou‑se‑lhe. — Obrigada por me salvares.

Sou a Camila López. — Mateo — respondeu ele com um sorriso breve. Dançava com uma elegância natural. — E o que é que esse ex tem de tóxico?

— perguntou em tom casual. — Não é o melhor tema para um baile improvisado com um desconhecido. — Talvez. Mas dá-me curiosidade o homem que te fez pedir ajuda a alguém que nem conheces.

— Estivemos juntos quase dois anos. É encantador até te fazer sentir pequena sem dares por isso. Custou‑me muito recuperar. — Alguns homens só se sentem grandes quando conseguem diminuir os outros — disse Mateo.

A música mudou para um tom mais lento. Em vez de se afastarem, ela permaneceu perto. — O que te traz a este evento? — perguntou.

— Tenho um interesse pessoal na fundação que é apoiada esta noite. — Eu represento o Grupo Aman. Acabei de assumir o cargo de chefe de marketing. Mateo pareceu conter um sorriso.

— Parabéns. Parece importante. — É um desafio enorme. Ainda não conheço o senhor Lagos, o famoso CEO.

Dizem que quase nunca aparece nas oficinas. Mateo soltou uma risada breve. — Talvez ele seja tímido. — Um multimilionário tímido.

Duvido. O baile terminou e ele ainda lhe segurava na mão. — Queres uma bebida? — Sim, por favor.

Afastaram‑se para uma zona tranquila do salão e conversaram longamente, rindo, partilhando anedotas de trabalho. Havia uma naturalidade entre eles que Camila achava estranha e reconfortante ao mesmo tempo. Renata apareceu com um sorriso culpado. — Desculpa, o senhor Beltrán está à tua procura.

Investidores. — Obrigada pelo baile — disse Camila. — E pela distração. Mateo beijou‑lhe a mão com cortesia.

— Tenho a certeza de que voltaremos a encontrar‑nos. Enquanto se afastava, ela olhou para trás. Ele levantou a copa num gesto de despedida. O que Camila não sabia era que aquele homem não era um convidado qualquer.

Era Mateo Lagos, o CEO da empresa onde trabalhava. Na segunda‑feira, as oficinas do Grupo Aman estavam mais agitadas que o normal. Camila chegou cedo, a rever as suas notas no telemóvel enquanto atravessava o átrio. Sentou‑se na sala de reuniões ao lado de Renata e da sua chefe direta, Ivana Rot.

— Os nossos números são sólidos — disse Ivana —, mas precisamos de reforçar a estratégia de lançamento. A Camila vai apresentar a proposta. Camila abriu a pasta. Tudo corria conforme o planeado até que a porta se abriu e um silêncio repentino se apoderou da sala.

— Bom dia. Não se interrompam por minha causa — disse uma voz masculina. Camila levantou o olhar e sentiu o corpo paralisar. Ali estava ele, Mateo, o homem com quem tinha dançado na sexta.

Só que agora não era apenas Mateo. Era Mateo Lagos, o CEO de toda a companhia. — Senhor Lagos, não esperávamos a sua presença — disse Ivana, visivelmente incomodada. — Decidi envolver‑me mais nas operações.

Continuem. Camila mal conseguia pensar. O homem com quem tinha brincado sobre o CEO ausente era o próprio CEO. — Camila, é a tua vez — disse Ivana.

Ela levantou‑se com as pernas a tremer. — Bom dia. Apresento‑vos a estratégia para a linha Aman Elite. — Não receia que isso dilua a imagem exclusiva da marca?

— perguntou Mateo com voz pausada. — Não creio, senhor Lagos. O luxo moderno baseia‑se na conexão, não apenas na exclusividade. Mateo assentiu, deixando entrever um sorriso de aprovação.

— Abordagem interessante. Continue. Quando terminou, vários diretores a felicitaram. Até Ivana, com um gesto tenso, reconheceu que a proposta tinha potencial.

— Excelente trabalho, López — disse Mateo no final. — Gostava de rever alguns pontos consigo. Pode vir ao meu gabinete esta tarde? — Claro, senhor Lagos.

Assim que saiu, Renata interceptou‑a no corredor. — Ouvi dizer que o Mateo Lagos pediu uma reunião privada contigo. — Dancei com ele na sexta — admitiu Camila. — O quê?

— O CEO. E disse‑lhe que ele era demasiado importante para conhecer os empregados novos — disse Camila, levando as mãos à cara. Às três da tarde, Camila chegou ao gabinete do CEO. Bateu suavemente.

— Entra. Mateo estava de pé junto às janelas, sem casaco. — Obrigado por teres vindo. Senta‑te, por favor.

— Preparei alguns dados adicionais — começou ela, num tom formal. — Antes disso — interrompeu ele. — Devo‑te uma explicação. Não fui completamente sincero no evento.

Disseste que me chamava Mateo. Não menti. Omiti o apelido. Não costumo revelar quem sou nesse tipo de eventos.

As pessoas mudam de atitude quando descobrem. — Imagino. Nem todos te falariam com tanta liberdade. — Precisamente por isso o faço.

Foi refrescante falar com alguém que não tentava impressionar‑me. — Sobre isso, lamento os meus comentários. Fui imprudente. — Foste honesta e tinhas razão.

Tenho estado demasiado afastado do dia a dia da empresa. Desde que a minha mãe morreu, entrar nestas oficinas era diferente. — E o que mudou? Mateo olhou‑a por um instante.

— Digamos que algo despertou a minha curiosidade outra vez. A tensão inicial dissipou‑se enquanto discutiam a proposta. Mateo ouvia‑a com interesse genuíno, fazendo perguntas inteligentes. Exigente, mas justo.

— A tua abordagem tem muito potencial — disse ele, levantando‑se. — Por isso quero propor‑te algo maior. Quero que lideres pessoalmente a expansão internacional da linha Elite. Reportarias diretamente a mim.

— À Ivana, não. Diretamente a ti? — repetiu ela, surpreendida. — A Ivana é a minha chefe direta.

Isso pode parecer mal, Mateo. Ainda só estou aqui há umas semanas. — Vai parecer exatamente o que é: reconhecimento do teu trabalho. Vi os teus números.

Vi como defendeste a tua proposta sem hesitar. Já demonstraste que és capaz. — E se estiver enganado? — Então enganamo‑nos juntos e resolvemo‑lo juntos.

Mas não acredito que estejas enganada. — Há algo que devias considerar — disse Camila depois de um silêncio. — Se me saltares sobre a Ivana, ela não vai ver isso como uma decisão de negócios. Vai ver como uma humilhação pública.

E pessoas como ela não esquecem essas coisas facilmente. — Sei disso. Por isso vamos fazê‑lo com cuidado. Anúncio formal, justificação clara baseada em resultados.

Nada que pareça improvisado nem pessoal. — Aceito — disse ela finalmente. — Embora não saiba em que me estou a meter. — Eu também não sabia quando comecei a dirigir isto.

E aqui continuamos. — Já se está a falar disso — disse Renata, mais tarde, na copa. — A Ivana vai explodir. — Eu não pedi isto.

— Não importa. O que importa é como parece. E nesta empresa, fazer bem o teu trabalho quando vens de baixo às vezes paga‑se caro. Ivana apareceu ao fundo do corredor com uma pasta debaixo do braço e um sorriso que não chegava aos olhos.

— Ouvi a boa notícia, López. Que rápido te tornaste notada pelo senhor Lagos. — Fiz o meu trabalho, Ivana. Nada mais.

— Claro — respondeu ela sem deixar de sorrir. — Embora às vezes fazer o trabalho e estar no sítio certo, no momento certo, se confundam facilmente. — Se tiveres alguma dúvida sobre o meu desempenho, resolvo‑a com números, não com insinuações. — Não duvido, López.

Tens talento, nota‑se. O que me pergunto é quanto desse reconhecimento tem a ver com os teus resultados e quanto com o jeito que deste ao senhor Lagos numa pista de dança. — Isso é assunto meu — respondeu Camila sem desviar o olhar — e do senhor Lagos. Não teu.

No sábado à noite, um carro enviado por Mateo foi buscá‑la ao seu apartamento. Ela vestia um vestido azul meia‑noite, simples e elegante. No hotel Castela Dourada, encontrou‑o à espera no átrio, de smoking impecável. — Estás linda — disse ele, oferecendo‑lhe o braço.

— Nervosa? — perguntou ele enquanto entravam no salão. — Um pouco. Nunca vim a nada assim como…

o que quer que sejamos agora. — Colegas que dançam bem juntos — brincou ele. Durante o jantar, vários executivos aproximaram‑se para os cumprimentar. Camila notava os olhares curiosos, especialmente os de Ivana, sentada na mesma mesa.

Cada vez que Mateo se inclinava para lhe falar ao ouvido, Ivana apertava os lábios. — Queres sair um momento para a varanda? — perguntou Mateo. O ar fresco ajudou‑a a relaxar.

— Obrigada. Às vezes esqueço‑me que neste mundo tudo se analisa, até uma simples conversa. — Deixa‑os analisar. Não tens nada a esconder.

— A Renata diz que as pessoas começam a falar de nós. Que não sou a primeira pessoa que chega de fora e que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai dizer que estou aqui só por ti. — E isso preocupa‑te. — Toda a minha vida tive de demonstrar o dobro para me levarem a sério.

Não quero que um rumor apague isso. — Então não deixes. Os teus resultados falam por si. O resto é ruído.

O momento quebrou‑se quando a porta da varanda se abriu. Um homem saiu e ficou congelado ao vê‑los. — Renzo — disse Camila, com um sorriso forçado. — Não esperava encontrar‑te aqui — disse ela com frieza.

— Convite de última hora — respondeu ele, olhando para Mateo. — Um prazer, senhor Lagos. Sou o Renzo Cabral. — Igualmente — respondeu Mateo, com o olhar endurecido.

— A Camila e eu somos velhos amigos. — Ex‑namorados — corrigiu ela. — E não acabámos bem. — Coisas do passado — disse Renzo, com uma risada falsa.

— Sempre pensei que, mais cedo ou mais tarde, voltarias ao teu lugar, Camila. E olha‑te agora, a circular com o dono disto tudo. Além disso, ouvi dizer que em breve poderemos ser colegas. Assinei um contrato de consultoria com o Grupo Aman.

Começo na terça. Camila ficou gelada. — Como? — A senhora Rot recomendou‑me pessoalmente.

— Curioso — disse Mateo, semicerrar os olhos. — Porque não há vagas de consultoria abertas. — Então talvez queiram criar uma para mim. Alguém com a minha experiência encontra sempre um lugar.

— Desculpe, senhor Cabral, preciso de falar com a minha acompanhante. Boa noite. Quando Renzo se afastou, Camila mal conseguia articular palavra. — Não fazia ideia de que ele estava a tentar entrar na empresa.

— Não te preocupes — respondeu Mateo. — Vou descobrir como conseguiu esse contrato. No domingo, Renata escreveu‑lhe uma mensagem: «Já se fala do jantar de ontem no chat da empresa. Alguém tirou uma foto de vocês na varanda.

»

Na segunda‑feira, Mateo esperava‑a cedo junto ao gabinete dela. — Preciso de falar contigo — disse com voz séria. Conduziu‑a a uma sala pequena. — Passei o fim de semana a investigar.

O Renzo Cabral e a Ivana Rot conhecem‑se há anos. Trabalharam juntos antes de tu o conheceres. Camila leu os documentos, a expressão a mudar. — Estás a dizer que a Ivana teve alguma coisa a ver com a nossa relação?

— É muito possível. Ela recomendou‑o no teu antigo emprego, o mesmo sítio onde vocês se conheceram. — Dois anos da minha vida. As noites em que duvidei de mim mesma.

Tudo teve uma explicação que dói ainda mais do que a rutura. — Não posso garantir, mas há demasiadas coincidências. E se a minha intuição está certa, ela planeia algo maior. Está a um mês de se tornar diretora oficial da área.

Quando isso acontecer, terá controlo sobre trinta por cento das ações do grupo, por um acordo do meu pai com a minha mãe antes de ela morrer. — Então vê‑me como uma ameaça. — Exato. As tuas ideias chamaram a atenção do conselho.

E a minha. Se conseguir ligar‑te a um escândalo, pode destruir a tua reputação e proteger a dela. O Renzo é a ferramenta dela. O silêncio encheu a sala.

— Vamos acelerar o plano. Precisamos que o Renzo confesse à frente de uma testemunha gravada. Se conseguir que ele pense que está a falar com alguém de confiança, pode soltar mais do que imaginas. — E se correr mal?

— Se ele suspeitar de alguma coisa, não estarás sozinha. Eu estarei atrás do espelho. O advogado da empresa vai supervisionar tudo. Na manhã seguinte, o plano estava em marcha.

Renzo recebeu uma mensagem que parecia vir de Ivana, a pedir‑lhe que se encontrassem antes de se apresentar ao conselho. O que ele não sabia era que a reunião seria com Camila e que Mateo supervisionava tudo atrás do espelho. Camila sentou‑se, fingindo rever documentos enquanto esperava. O coração batia com força, mas respirou fundo.

— Grande surpresa — disse Renzo ao vê‑la. — Esperava a Ivana. — Teve de se atrasar. Pediu‑me que te atualizasse sobre os últimos ajustes.

Ele olhou‑a com desconfiança. — Desde quando trabalhas tão próxima dela? — Desde que percebeu que o nosso caso podia servir a ambas. Não vais querer que algo seja mal interpretado à frente do conselho, pois não?

Renzo sorriu, acreditando que dominava a conversa. — Não, claro que não. A Ivana e eu temos tudo sob controlo. — Ainda estás em contacto com ela desde antes de eu entrar na Aman?

— Desde muito antes — disse ele com tom triunfante. — Ela foi quem me apresentou ao teu antigo chefe. Desde então que trabalhamos juntos. — Então ela pediu‑te que te aproximasses de mim.

Renzo apoiou‑se na mesa, confiante. — Precisávamos de saber se eras um risco. A Ivana tem bom olho para detetar ameaças. Quando viu as tuas propostas, percebeu que podias conquistar o Lagos, por isso pediu‑me que te mantivesse na linha.

Alguém com o teu perfil não devia chegar tão longe, tão rápido. — E agora, o que é que ela planeia fazer quando tomar o controlo da fundação? — Reestruturar tudo. Eliminar as peças desnecessárias.

A começar por ti e depois pelo próprio Lagos. — E a fraude de faturação que estão a preparar? Renzo sorriu, sem suspeitar de nada. — Um pequeno ajuste necessário.

Nada que não possa ser resolvido depois, quando já não importar. A Ivana sabe cobrir as suas pegadas melhor que ninguém. — Tens tudo documentado? — Claro.

Nunca deixo pontas soltas. Naquele instante, a porta lateral abriu‑se e Mateo entrou com passo firme. Renzo ficou gelado. — Senhor Lagos, eu…

— Não te dês ao trabalho — interrompeu Mateo com voz fria. — Acabámos de ouvir tudo. Renzo recuou um passo, a tentar recompor‑se. — Não foi o que pareceu.

— Poupa‑me as mentiras — disse Camila, levantando‑se. — Desta vez não vais conseguir manipular ninguém. Mateo virou‑se para ela. — Já temos o que precisávamos.

Leva a gravação ao departamento jurídico. Eu trato do resto. Nessa mesma tarde, o departamento jurídico ligou com urgência. — Senhor Lagos, preciso que venha imediatamente.

Há um problema com as contas do marketing. Mateo chegou juntamente com Camila. Sobre a mesa, um relatório financeiro mostrava movimentos irregulares. — Encontrámos faturação retroativa não autorizada, ligada à conta da Camila López.

Parece fraude interno. Camila sentiu o chão fugir‑lhe debaixo dos pés. — Isso é impossível. Nunca autorizei nada assim.

— Sabemos — disse Mateo, sustentando‑lhe o olhar. — Mas alguém se certificou de que o teu nome ficasse ligado a isto antes de podermos apresentar a gravação ao conselho. — A Ivana. Soube que a gravámos e antecipou‑se.

Quer que, quando chegarmos ao conselho com a prova contra o Renzo, o teu nome já esteja manchado. — E se não acreditarem em mim? — Vamos apresentar tudo junto. A gravação do Renzo e a prova de que a fraude foi orquestrada para te desacreditar.

O conselho vai ver o padrão completo. Na manhã seguinte, a sala do conselho estava cheia. Diretores, advogados e, à frente, Mateo Lagos, com expressão serena mas firme. Camila sentou‑se ao lado dele com o coração aos saltos.

Ivana entrou por último, com passo seguro, sem suspeitar do que a esperava. — Obrigado por teres vindo, Ivana — disse Mateo. — Antes de tratarmos das supostas irregularidades na conta da senhora López, o conselho precisa de ouvir uma coisa. Carregou num botão.

A voz de Renzo encheu a sala, a detalhar o seu acordo com Ivana e os planos para manipular o controlo da empresa. A cor desapareceu do rosto de Ivana. — Isto é uma armadilha. Não têm provas de que essa gravação não foi manipulada.

— O sistema de segurança registou a sua origem no correio corporativo do Renzo Cabral. Está tudo certificado. O advogado projetou no ecrã o rasto dos movimentos financeiros. — A faturação retroativa foi modificada há três dias a partir de um terminal registado em nome da senhora Rot, logo depois de o Renzo ter confessado o acordo consigo.

Julián Cranz, sentado no outro extremo da mesa, cruzou os braços e olhou para Ivana. — A senhora veio pedir‑me que duvidasse da capacidade da senhora López. E a única dúvida real está sobre a sua própria conduta. Um murmúrio percorreu a sala.

— Tentou destruir a reputação de uma funcionária inocente para proteger a sua — continuou Mateo. — E fê‑lo sabendo que já existiam provas contra si. — Isto não prova nada — insistiu Ivana, com a voz a quebrar‑se. — Prova exatamente o que precisávamos — respondeu Camila, levantando‑se.

— Que a senhora decidiu que alguém como eu não merecia estar nesta sala. Que pensou que, por vir de onde venho, seria fácil de enterrar sem que ninguém desse por isso. Enganou‑se. O silêncio foi absoluto.

— Senhor Lagos — disse um dos diretores. — O meu voto é a favor da destituição imediata da senhora Rot e de remeter o caso às autoridades, juntamente com o do Renzo Cabral. Os restantes assentiram um por um. Ivana levantou‑se, olhando diretamente para Camila.

— Achas que ganhaste? Isto não fica assim. Já fiz algumas chamadas antes de vocês armarem o vosso numerito com o Renzo. Vais desejar que isto tivesse acabado aqui.

— A diferença — respondeu Camila, sustentando‑lhe o olhar sem pestanejar — é que eu não preciso de trair ninguém para demonstrar o meu valor. Os seguranças escoltaram‑na para fora da sala. Mateo virou‑se para o conselho. — Com a saída da senhora Rot, proponho que a Camila López assuma oficialmente a direção de marketing.

O voto foi unânime. Dois dias depois, enquanto celebrava com a Renata a sua nomeação oficial como diretora de marketing, a assistente de Mateo entrou sem bater. — Senhor Lagos, tem de ver isto. É urgente.

No ecrã, um e‑mail de um escritório de advogados externo. Uma carta assinada por Ricardo Solé, representante do Fundo Moreira Capital, um dos acionistas minoritários mais agressivos do grupo. «Solicitamos uma assembleia extraordinária de acionistas para rever a gestão da crise interna no Grupo Aman, incluindo a nomeação recente da senhora López em circunstâncias que consideramos, no mínimo, irregulares. »

— Como é que o Solé soube disto?

Isto aconteceu há dois dias. — A Ivana — respondeu Mateo, com o maxilar tenso. — Antes de a tirarem da sala, já tinha filtrado a versão que lhe convinha. — Quando é a assembleia?

— Daqui a três dias. O mínimo legal que um acionista do peso dele pode exigir. — Lá fora, já há repórteres a perguntar por ti — disse Renata, com o rosto pálido. — Alguém filtrou que vai haver uma assembleia de emergência.

No dia da assembleia, o salão do hotel Alameda Real estava transformado. Cadeiras em filas, um palco à frente, câmaras de imprensa ao fundo. Acionistas, diretores, jornalistas. Todos à espera.

Ricardo Solé subiu primeiro ao palco. — Estamos aqui porque o Grupo Aman atravessa uma crise de governação. Uma funcionária promovida em semanas a um cargo que a outros leva anos. Envolvida emocionalmente com o diretor‑geral e salpicada por acusações de fraude que nunca foram devidamente esclarecidas.

— Com todo o respeito, senhor Solé — respondeu Mateo, tomando o microfone —, as acusações de fraude foram esclarecidas. Foram orquestradas pela própria pessoa que o senhor parece defender indiretamente com esta convocatória. Quanto à relação pessoal, foi declarada formalmente aos recursos humanos e ao comité de ética desde o início. — Represento a Moreira Capital, um fundo com interesses legítimos nesta empresa.

Camila levantou‑se antes de Mateo poder responder. — Permita‑me responder eu mesma, senhor Solé. A sala ficou em silêncio. Ela caminhou para a frente, consciente de cada câmara, de cada olhar.

— É verdade que venho de uma família sem apelido conhecido neste meio. A minha mãe trabalhou toda a vida numa papelaria. Eu cobrava fotocópias depois da escola. E sim, em poucas semanas passei de chefe de marketing a diretora com o apoio direto do diretor‑geral.

Fez uma pausa. — O que não é verdade é que essa promoção se deva a um favor pessoal. Aqui estão os resultados da linha Elite sob a minha gestão: vinte e dois por cento de crescimento em dois meses. Aqui está a gravação legal onde o Renzo Cabral confessa ter agido em conjunto com a ex‑diretora Ivana Rot para manipular a minha carreira e sabotar esta empresa.

E aqui está o rasto financeiro que prova que a suposta fraude foi fabricada por ela própria para me desacreditar. Projetou os documentos no ecrã. A sala observava em silêncio absoluto. — Senhor Solé, posso perguntar‑lhe uma coisa?

Quando recebeu a informação que o levou a convocar esta assembleia? Solé hesitou. — Recebi uma comunicação de uma fonte fiável. — O senhor não é obrigado a revelar as suas fontes.

Mas eu posso mostrar o registo de chamadas entre o seu escritório e o número pessoal de Ivana Rot, feito duas horas depois de ela ter sido destituída. E também posso mostrar uma transferência de quarenta mil dólares de uma conta ligada a ela para o seu escritório, processada horas antes de enviar a carta a pedir esta assembleia. As câmaras viraram‑se para Solé, cujo rosto perdera a cor. — Isto não prova nada — balbuciou.

— Prova que esta assembleia não nasceu de uma preocupação genuína com a governação da empresa — disse Mateo. — Nasceu da última jogada de uma mulher que já foi destituída por tentar destruir uma funcionária inocente. E o senhor decidiu emprestar‑lhe o seu nome e a sua influência para tentar outra vez. Um acionista levantou‑se.

— Proponho encerrar esta assembleia com um voto de confiança explícito na direção atual, incluindo a nomeação da senhora López, e uma investigação formal à conduta do senhor Solé. A moção foi secundada de imediato. A votação foi esmagadoramente a favor. Camila sentiu as pernas mal a sustentarem, mas manteve‑se de pé, de cabeça erguida, enquanto os aplausos enchiam o salão e os flashes das câmaras capturavam o momento.

Ao sair do palco, um grupo de jornalistas interceptou‑a. — Senhora López, o que diria a outras mulheres que enfrentam ataques semelhantes à sua reputação no trabalho? — Que o lugar de onde vêm não define até onde podem chegar — respondeu Camila, sem hesitar. — E que a única credencial que realmente importa é o trabalho bem feito.

Nessa noite, Mateo recebeu uma chamada do departamento jurídico. — Renzo Cabral está sob investigação internacional por fraude corporativa. A saída do país foi bloqueada. Ivana Rot enfrenta acusações formais por manipulação de registos financeiros, difamação e suborno.

O fundo Moreira Capital já anunciou que vai retirar a sua representação do conselho. — Ela confessou alguma coisa? — Não diretamente. Mas com as provas que reunimos, o caso está praticamente fechado.

Não vai poder trabalhar num cargo de direção neste país durante muito tempo. Mateo desligou com uma sensação agridoce. — Acho que agora o círculo fechou‑se mesmo — disse Camila, quando ele lhe contou. Uma tarde, recebeu uma mensagem de Mateo: «Encontramo‑nos no salão principal do hotel Alameda Real às oito.

Não faltes. »

Às oito em ponto, Camila entrou no salão. Já não havia imprensa, nem câmaras, nem acionistas. Apenas a orquestra a tocar uma melodia suave e Mateo à espera dela no centro da pista.

— Lembras‑te da primeira vez que dançámos aqui? — Como hei de esquecer? Estava aterrorizada e tu salvaste‑me sem saberes quem eras. — Agora sei quem és — respondeu ele, aproximando‑se.

— E não preciso de nenhum pretexto para te pedir isto outra vez. Estendeu‑lhe a mão. — Danças comigo? — Sempre — respondeu ela, pegando‑lhe na mão.

— E já que falamos de novos começos — acrescentou Mateo, tirando um envelope do bolso do casaco. — Tenho mais uma coisa para te dizer. Dentro estava uma carta de nomeação, a sua renúncia como diretor‑geral e a proposta formal para que Camila assumisse o cargo. — Estás a gozar?

— Tomei essa decisão há semanas. Preciso de me focar em novos projetos. E sei que a empresa fica nas melhores mãos. — Não sei se estou pronta para uma coisa destas.

— Também não estavas quando te conheci. E olha para ti agora. Enfrentaste um fundo de investimento inteiro à frente das câmaras e ganhaste. — Promete‑me que vais continuar por perto.

— Isso posso prometer facilmente. Porque tenho algo melhor do que ser o teu chefe. Inclinou‑se e beijou‑a enquanto a música os envolvia. — Dás conta?

— sussurrou ela. — Tudo começou com um simples «danças comigo? ». — E aqui continuamos — respondeu ele, dançando.

— Sem medo que ninguém nos veja. Sem medo do que digam sobre de onde vimos.