O alfinete invisível espetou mais fundo quando Ricardo viu o rosto de Camila se iluminar com uma mensagem que não era dele. No Fasano, entre champanhe e mentiras, o jantar continuou. Mas Luísa, a…

O alfinete invisível espetou mais fundo quando Ricardo viu o rosto de Camila se iluminar com uma mensagem que não era dele. No Fasano, entre champanhe e mentiras, o jantar continuou. Mas Luísa, a...

Aquele alfinete invisível voltou a picar quando Ricardo viu Camila pegar o telemóvel durante o jantar no Fasano. O rosto dela iluminou-se a ler a mensagem, e ele percebeu que nunca a via assim por causa dele. Ela guardou o aparelho, disse que era uma amiga, e o jantar continuou entre mentiras e champanhe. Luísa Oliveira, a jovem empregada de mesa, observava tudo da sua estação junto ao bar.

Thumbnail

Já os vira antes. Ela e o outro homem. Sempre às terças, sempre na mesa 23. Duas semanas depois, quando Ricardo entrou sozinho no Fasano e pediu um whisky ao balcão, Luísa aproximou-se.

A hesitação dela durou segundos. — Terça-feira, vinte horas. Mesa vinte e três, nos fundos — disse, baixinho. E antes que ele pudesse perguntar o que significava, afastou-se para atender outra mesa.

Na terça seguinte, Ricardo estacionou longe do restaurante e sentou-se no bar com vista para a mesa 23. Camila chegou às vinte e cinco. Vinha deslumbrante, mas não vinha sozinha. Um homem mais novo juntou-se a ela.

O beijo que trocaram era de amantes. Ricardo viu as mãos dela entrelaçadas nas dele, ouviu-o chamá-la de “meu amor” quando ela se inclinou para lhe sussurrar algo. Ficou ali, paralisado, a beber o whisky devagar enquanto o salão rodava à sua volta. Luísa aproximou-se em silêncio.

— Ela vem aqui com ele há mais de um mês. Todas as terças. — Porque é que me contou? — perguntou Ricardo, a voz presa na garganta.

— Porque a minha mãe fez o mesmo ao meu pai. Quando ele descobriu, já tinha perdido a dignidade. Ninguém merece viver enganado. Ricardo olhou para ela.

A garçonete, a estudante de Letras, a única pessoa honesta naquela sala. Não disse mais nada. Pagou a bebida e saiu. Nos dias seguintes, Ricardo fingiu normalidade.

Planeou o confronto com a precisão de um negócio: o mesmo restaurante, a mesma mesa, a mesma garçonete. Uma semana depois, sentou-se na mesa 23 e pediu a Luísa o vinho Barolo. Depois ligou a Camila. — Jantar especial esta noite.

Fasano, vinte e trinta. Tenho uma surpresa para ti. Ela chegou radiante, mas o sorriso vacilou quando viu a mesa. Ricardo observou-a sentar-se, o perfume caro, o vestido novo que ele nunca vira.

— Esta mesa tem uma energia especial, não achas? — perguntou. — Prefiro a nossa mesa habitual. — Hoje quis privacidade.

O jantar foi uma coreografia de silêncios e respostas evasivas. Ricardo esperou até à sobremesa. — Camila, lembras-te da primeira vez que me disseste que me amavas? Ela sorriu, nervosa.

— Claro. No rooftop do hotel em Copacabana. A lua cheia, o mar a brilhar… — Acreditei em ti.

Em cada palavra. — Porque estás a falar disso? — Foi também sob o luar que disseste ao André que o amavas? Ou foi aqui mesmo, nesta mesa, a rir-te de como eu era ingénuo?

O rosto dela perdeu a cor. A boca abriu-se sem som. — Eu sei de tudo, Camila. Sei dos encontros às terças.

Do apartamento na zona oeste. Sei que o maître te conhece como cliente habitual. Ela tentou estender a mão. — Ricardo, eu posso explicar…

— Explicar o quê? Que foste a casa dele durante três horas na terça-feira passada enquanto me dizias que ias visitar a tua mãe em Campinas? — Tu… tu seguiste-me?

— Não precisei. A tecnologia facilita. A raiva substituiu o choque. — Espionaste-me?

Invadiste a minha privacidade? — É interessante como a pessoa que traiu se sente moralmente superior por ter sido apanhada. Camila respirou fundo, recuperou a compostura. — Ok, errei.

Mas todos erram. O que tivemos foi real. Podemos superar isto. — Não, não podemos.

Um deslize é uma noite. Tu construíste uma vida paralela. Encontros regulares, dias marcados. Isto não é um erro, é uma escolha.

Ela endureceu. — Não podes fazer isto. — Já fiz. Amanhã, quando voltares ao apartamento, as tuas coisas estarão embaladas.

A chave não vai funcionar. — Vais te arrepender, Ricardo. — Menos do que me arrependeria de manter uma mentira na minha vida. Camila levantou-se, pegou na bolsa Chanel que ele lhe dera, e saiu de cabeça erguida.

Ricardo ficou sozinho na mesa. Luísa aproximou-se. — Está tudo bem? — Vai ficar.

As semanas seguintes foram de solidão e silêncio. Ricardo redescobriu a cidade, caminhou por bairros onde ninguém o conhecia, almoçou em cantinas de estudante. Uma terça-feira chuvosa, voltou ao Fasano. Não pediu mesa.

Sentou-se ao balcão e pediu para falar com Luísa. — Tenho uma proposta para ti. Preciso de alguém com olho crítico e conhecimento de linguagem no departamento editorial da minha empresa. Vinte e cinco horas semanais, horário flexível.

Salário acima da média. Plano de saúde para ti e para a tua irmã. Luísa franziu o sobrolho. — Como sabe da minha irmã?

— Marinas, a minha diretora editorial, disse-me que o tratamento dela é caro. Quero ajudar. — Isto é caridade? — É um estágio.

Trabalho a sério. Vais ganhar o teu ordenado. Ela hesitou, mas aceitou. Durante as semanas seguintes, Ricardo manteve distância profissional.

Luísa destacou-se no trabalho. Marina, a supervisora, elogiou-lhe a capacidade de detetar inconsistências em relatórios que tinham passado por três revisores. Ricardo ouviu os relatos com um orgulho que tentou disfarçar. Num fim de tarde, encontraram-se na cafeteria do edifício.

Luísa estava absorta na leitura de um manuscrito. — Posso sentar-me? Ela ergueu os olhos, surpresa. — Claro.

— Como está a tua irmã? — Melhor. O novo médico é fantástico. Doutor Santos.

Normalmente, há meses de espera para uma consulta com ele. Tivemos sorte. — Sorte, sim. Luísa olhou-o fixamente.

— Posso fazer uma pergunta pessoal? — Diz. — Porque está a fazer tudo isto? O estágio, o plano de saúde.

O médico que, coincidentemente, tinha uma vaga para a minha irmã. — É tão difícil acreditar que alguém queira ajudar sem segundas intenções? — Na minha experiência, sim. Especialmente quando esse alguém é um bilionário que mal me conhece.

— A diferença entre ti e a Camila é que tu nunca pediste nada. Resististe à minha oferta. A tua honestidade foi o que me atraiu, não a tua necessidade. — Atraiu?

— Como pessoa, como caráter. Isto é estritamente profissional. Ela não pareceu convencida, mas deixou o assunto. Passaram-se semanas.

Ricardo começava a sentir que a vida encontrava um novo equilíbrio. Até que Camila apareceu na receção da empresa, alterada, a ameaçar fazer um escândalo. — O que queres, Camila? — Quero a minha vida de volta.

Diz às pessoas que terminámos amigavelmente, que ainda somos amigos, que me recomendas profissionalmente. — Seria mentira. — E daí? A tua vida inteira é construída sobre mentiras convenientes.

O self-made man que na verdade teve ajuda de investidores… — Chega. Vou mandar chamar segurança. Antes que pudesse, a porta abriu-se.

Luísa, com documentos nas mãos, parou ao vê-los. — Desculpe, não sabia que a sala estava ocupada. Camila sorriu. — Tu deves ser a famosa Luísa.

Ouvi muito sobre ti. — Camila Rocha — reconheceu Luísa, a expressão a fechar-se. — Ex-namorada? É tão formal.

O Ricardo e eu temos uma história complicada. Não é, querido? Luísa olhou para Ricardo com uma decepção que o gelou. — Preciso de voltar ao trabalho.

— Espera — chamou ele, mas ela já tinha saído. Camila riu baixinho. — Parece que o destino está do meu lado. — Sai da minha empresa, Camila.

E não voltes. Depois que ela se foi, Ricardo passou o resto do dia a tentar falar com Luísa. Marina informou que ela tinha pedido para sair mais cedo, uma emergência com a irmã. As chamadas caíram no vazio.

Ao fim do dia, Ricardo dirigiu-se ao bairro dela. O prédio era simples, sem porteiro. Quando hesitava junto ao interfone, a porta abriu-se e uma jovem em cadeira de rodas saiu, acompanhada por uma cuidadora. Reconheceu-a pelas fotografias que Luísa tinha na secretária.

— És a Helena, a irmã da Luísa? A jovem olhou-o com desconfiança. — Sim. E tu?

— Ricardo Mendonça, o chefe dela. — Ah, o chefe. Ela fala de ti. Nunca a vi tão empolgada com um trabalho.

— Ela está em casa? Preciso de falar com ela. — Saiu há pouco. Foi para o parque, o da Vila Primavera.

Gosta de se sentar no banco de madeira perto do quiosque de café. A cuidadora suspirou. — Helena, não devias dar informações pessoais a estranhos. — Ele não é estranho — respondeu Helena, com um sorriso.

— É o homem que paga o meu tratamento. Ricardo piscou, surpreendido. — Ela sabe? — A Luísa é inteligente demais para acreditar em coincidências.

— E como é que ela fala de mim? — perguntou, incapaz de conter a curiosidade. Helena sorriu. — Vai descobrir.

Ricardo agradeceu e encaminhou-se para o parque. O sol estava a pôr-se. Enquanto caminhava, sentiu o coração bater mais rápido.

Talvez, pensou, a vida realmente oferecesse segundas chances quando menos se esperava.