Acordei a arder em febre, o corpo a tremer, e a única pessoa que devia estar ali estava no aeroporto a receber outra. Liguei-lhe, desesperada: “Tiago, estou com 40 de febre, parti um copo…” A…

Acordei a arder em febre, o corpo a tremer, e a única pessoa que devia estar ali estava no aeroporto a receber outra. Liguei-lhe, desesperada: “Tiago, estou com 40 de febre, parti um copo...” A...

Acordei no meio da noite com o corpo em chamas. A febre espreitava os 40 graus. Estendi a mão para o telemóvel: 2:15 da manhã. O Tiago ainda não tinha voltado.

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Liguei-lhe. — Estou, Sofia, o que é que foi? — a voz dele irritada, o ruído do aeroporto de fundo. — Tiago, estou com 40 de febre.

Mal me consigo mexer. Parti um copo… podes vir para casa? — Pára de ser mimada. Toma um antipirético.

O voo da Inês atrasou, ela está aterrorizada. Não sou médico para resolver a tua febre. Adeus. Desligou.

Fiquei a olhar para o tecto, o coração a doer mais que a garganta. De manhã, a febre baixara um pouco. Arrastei-me até à sala. O jantar do nosso terceiro aniversário estava intacto, frio.

O bacalhau com natas com uma camada de gordura solidificada. Ao lado, a caixa de veludo azul com o relógio suíço que lhe tinha comprado depois de noites de trabalho extra. Peguei no telemóvel. Uma notificação do Facebook.

O Tiago acabara de publicar uma história. Na foto, ele sorria radiante, uma mão na mala, a outra no ombro da Inês. Ela aninhava-se nele, vestia o casaco que ele levara de casa. A legenda: «Finalmente a minha princesinha decidiu voltar.

Mesmo tendo de passar a noite em branco à tua espera, valeu a pena. Bem-vinda à casa, pequenina. »

Princesinha. Pequenina.

Nomes que nunca usou comigo. Sentei-me no sofá e liguei à minha mãe. — Mãe… a febre, o Tiago no aeroporto, a foto… — Desatei a chorar. Contei-lhe tudo.

Ela ouviu em silêncio. Depois disse, com a voz firme:

— Sofia, a escritura da casa está no teu cofre? — Sim. — Óptimo.

Levanta-te, faz uma mala com as tuas coisas importantes, vem para casa da mãe. Quanto à casa, eu trato disso. Um parceiro de negócios precisa de um escritório naquela zona. Vai pagar a pronto.

Amanhã entrego as chaves. — Mãe, mas as burocracias…

— Não te preocupes. O meu advogado trata de tudo. O que importa é cortar o caminho de volta a esse homem.

Pousei o telefone. Caminhei até ao cofre. Tirei a escritura, a certidão de casamento, umas joias. Na secretária, um formulário de divórcio que tinha impresso há meses, nunca assinado.

Assinei-o. Deixei-o em cima da mesa, ao lado da caixa do relógio. No dia seguinte, por volta das três da tarde, o Tiago e a Inês pararam em frente ao prédio. Ele abriu-lhe a porta do táxi, pegou na mala cor-de-rosa, amparou-a como se ela fosse de cristal.

Subiram ao 18. º andar. O Tiago marcou o código na fechadura — 1210, o aniversário da Inês. A fechadura apitou erro.

Luz vermelha. Tentou de novo. Outro erro. O sistema bloqueou por cinco minutos.

— O que se passa? — queixou-se a Inês, encostada à parede. — Ela mudou o código de propósito. É mesmo mesquinha.

O Tiago ligou à segurança. O Sr. Manuel subiu, com uma expressão séria. — Lamento, senhor Tiago, não lhe posso abrir a porta.

A dona Sofia finalizou a entrega das chaves ao novo proprietário esta manhã. Deixou instruções claras de que o senhor já não tem permissão para entrar. — O quê? Esta casa é minha!

— Não é, senhor. Os documentos estão assinados por ela. Peço-lhe que abandone o corredor. Nesse instante, o telemóvel do Tiago vibrou.

Uma transferência de 50. 000 euros — a parte dele da conta poupança comum. A descrição: «Liquidação dos bens comuns. Estamos quites.

»

Uma chamada de número desconhecido. — Senhor Tiago Martins? Sou o assistente do novo proprietário. Tem até amanhã ao meio-dia para recolher os seus pertences pessoais.

Depois disso, serão descartados. — Eu vou processar-vos! — Reveja o Código Civil, senhor. O apartamento é bem próprio da dona Sofia, adquirido antes do casamento, registado apenas em nome dela.

Ela tem plenos poderes para dispor dele sem a sua assinatura. O homem desligou. O Tiago ficou parado no corredor, com a Inês de braços cruzados, a fazer beicinho. — Vou levar-te a um hotel cinco estrelas — disse ele, forçando um sorriso.

— A casa está uma confusão. No hotel, quando tentou pagar com o cartão adicional que eu lhe dera, a operação foi recusada. O titular principal cancelara o cartão. O Tiago teve de usar o seu próprio cartão de ordenado, deitando a mão à carteira com um ar trocado.

A Inês franziu o nariz. — O que é que se passa? Ficaste sem dinheiro? Na manhã seguinte, foram para a vivenda da minha mãe, nos arredores de Cascais.

A minha mãe abriu o portão pequeno, tesoura de podar na mão, a bloquear a entrada. — O que queres? — Mãe, chame a Sofia. Ela vendeu a casa, bloqueou os cartões, foi-se embora.

Que tipo de esposa faz isto? A minha mãe riu-se. — Esposa? E tu, que tipo de marido abandonas a mulher com 40 de febre para ires buscar outra?

Eu mandei verificar os voos. O avião aterrou 30 minutos antes do previsto. O céu estava limpo. Onde é que andaram durante quatro horas?

O Tiago empalideceu. A Inês puxou-lhe a manga. — Vamos embora, Tiago. A minha mãe atirou uma cópia da escritura para os pés dele.

— Lê. A casa é minha. Dei-a à Sofia antes de ela casar contigo. Tu não tens direito a nada.

E nunca mais te atrevas a aparecer aqui. O portão fechou-se com estrondo. Ficaram os dois ao sol, sem táxis à vista. O Tiago começou a sentir o peso de ter perdido tudo.

Na segunda-feira, chegou atrasado ao trabalho. A secretária disse-lhe que a direção o esperava na sala de reuniões. Lá dentro, o diretor de RH e um homem mais novo, de ar frio, que se apresentou como Miguel, representante do fundo de investimento que acabara de comprar 40% da empresa. — Senhor Tiago, está despedido.

Incompetência na gestão do projeto e conduta moral incompatível com a cultura da empresa. — Com que base? — gritou ele. — Base nos adiantamentos que usou para pagar despesas pessoais da sua irmã de criação.

E no abandono da sua esposa doente. Não é alguém em quem possamos confiar. — Isso é mentira! A Sofia é que arranjou isto… ela tem um amante!

Miguel sorriu, fez sinal aos seguranças. Levaram-no para fora. Sem emprego, sem casa, com a Inês a reclamar, o Tiago teve de a levar para a casa da mãe, um apartamento pequeno e húmido, num bairro social. A Dona Lourdes, a sogra, recebeu-os com um sorriso que se desfez quando viu a bagagem.

— Ela vendeu a casa, mãe. Vamos ficar aqui uns dias. Ao jantar, a Inês fez uma careta com a carne de porco estufada. — Mãe, isto tem demasiada gordura.

Em França só comia peito de frango com salada. E não tem ar condicionado? Como é que se dorme? A Dona Lourdes pousou a panela com força.

— Tem paciência, filha. A casa é o que é. A Sofia, quando era nora, cozinhava com 39 graus sem se queixar. Agora que as coisas correram mal, ter um tecto já é sorte.

O Tiago comeu de cabeça baixa. Pela primeira vez, sentiu falta do meu cuidado. Uma noite, acordou com sussurros. Encostou-se à porta do quarto da Inês.

— Ó Hugo, dá-me só mais uns dias. O meu irmão idiota vai vender o carro, de certeza que terá dinheiro. Eu prometo, pago-te tudo. Ele ficou gelado.

Quem era o Hugo? Que dívida? — Amor? Que amor?

Só o via como uma mina de ouro. Quem diria que a mulher dele seria tão esperta? Mas não te preocupes, vou tirar dinheiro à velha. Ela adora-me.

O Tiago recuou cambaleante. A princesinha que ele protegera estava a planear enganá-lo. Na manhã seguinte, chegou uma citação do tribunal. O meu pedido de divórcio unilateral.

A Dona Lourdes agarrou o papel. — Não assines! Ela é podre de rica. Tens direito a metade da casa!

— Mãe, a casa é bem próprio dela. Não investi nada. — Burro! Faz um escândalo.

Diz que se não houver dinheiro, não assinas. Ela quer livrar-se de ti para ficar com outro. A família reuniu-se. Tios, primos, todos a planear como estorquir-me dinheiro.

Uns sugeriram fingir doença terminal. Outros, contratar um advogado. O Tiago olhou para aquela gente a disputar um bolo imaginário sobre a sua dor. Sentiu-se mais só do que nunca.

A vida dele continuou a descer. Sem emprego, tornou-se motorista de aplicação. Um dia, foi buscar um cliente a um centro de congressos. Estacionou o carro velho, escondido atrás dos vidros escuros.

As portas abriram-se. Saí eu, num vestido verde esmeralda, ao lado do Miguel, que me abria a porta de um Mercedes. Os flashes disparavam. O Tiago saltou do carro.

— Sofia! — gritou. — Então é isto. Deixaste-me por ele, sua adúltera!

Miguel colocou-se à minha frente. — Apresento a todos a minha prima, a designer Sofia. E este homem é o ex-marido que, por causa da irmã de criação, abandonou a esposa doente e desviou os bens do casal. Prima.

A palavra ecoou na cabeça do Tiago. Lembrou-se vagamente de eu ter dito que a minha mãe se tinha reconciliado com a família rica. Miguel fez sinal ao assistente, que ligou o telemóvel ao ecrã LED. Apareceram extratos bancários, mensagens, o vídeo da câmara do corredor.

Todas as provas da traição e da irresponsabilidade. A multidão murmurou. Os telemóveis filmaram. O Tiago sentiu-se nu.

— Vês, Tiago? — disse-lhe eu em voz baixa. — A verdade não se esconde. Vai-te embora.

Naquela noite, o vídeo tornou-se viral. A Inês foi cancelada. As marcas romperam os contratos. Em pânico, ela ligou ao Tiago a chorar.

— Por tua causa, perdi tudo! Ele não respondeu. Bloqueou-lhe o número. Dias depois, a Inês desapareceu.

Tinha levado o dinheiro que restava e as joias de ouro da Dona Lourdes, guardadas numa lata de biscoitos. O Tiago descobriu a guia de remessa para um apartamento alugado. Correu para lá. A porta estava entreaberta.

A Inês sentada no colo de um homem tatuado, o Hugo, a avaliar as joias. — O que fazes aqui? — perguntou ela, com desprezo. — Achas que te amava?

Quando tinhas dinheiro, eras a minha mina de ouro. Agora que secou, não contes comigo. O Tiago caiu de joelhos. A Dona Lourdes, ao saber da notícia, teve um AVC.

Ficou com o lado esquerdo paralisado. O Tiago não tinha dinheiro para o hospital. Em desespero, ligou-me. — Sofia, a minha mãe está nas urgências.

Não tenho um cêntimo. Pelo nosso casamento…

Respirei fundo. — Estamos em divórcio, Tiago. Legal e emocionalmente, tudo acabou.

Contacta o serviço social. Adeus. Desliguei. No tribunal, assinei o divórcio sem pedir nada.

Ele não tinha bens para partilhar. O juiz aceitou as provas do abandono e da traição financeira. O Tiago assinou a tremer. Saí do tribunal com o Miguel.

A chuva caía. O Tiago correu atrás de mim até ao portão. — Sofia, volta! — gritou.

Não me virei. Meses depois, numa loja de penhores, o Tiago abriu o portátil antes de o vender. Encontrou uma pasta oculta: «Para o meu filho, da mãe». Diário eletrónico de há dois anos, quando eu estava grávida.

Lia-se:

«Hoje a mãe fez a ecografia sozinha. O médico disse que o bebé é pequeno. Liguei ao pai, mas ele estava a levar a tia Inês a passear. A mãe sentiu-se muito triste.

»

«Esta noite a mãe teve dores. Liguei ao pai, não atendeu. Estava na casa da avó porque a tia Inês estava com gripe. A mãe perdeu-te, meu filho.

Desculpa por não te ter escolhido um pai melhor. »

O Tiago sentou-se no chão da loja, a chorar. A indiferença dele tinha matado o filho. Passou um ano.

Eu recebi o prémio de Designer Revelação do Ano. Na cerimónia, sorri. Mais tarde, fui para a casa que tinha comprado para a minha mãe. Abracei-a.

— A tempestade passou. Um dia, na Mouraria, fui inspecionar um prédio. Um estafeta de mota, suado, parou para estacionar. Recuei para lhe dar espaço.

Ele virou-se. Era o Tiago. Queimado do sol, rugas de cansaço. Olhou para mim, para o meu fato, e baixou a cabeça.

As mãos tremiam. Deixou cair o capacete. Passei por ele sem parar. Como se fosse um estranho.

Ele nunca mais me viu. Mas sei que me viu na capa de uma revista, no lixo. Lá estava a minha foto, o título: «Designer Sofia, a beleza da liberdade. »

Nessa noite, no jardim da minha mãe, o Miguel veio visitar-nos.

Sentámo-nos na varanda. O futuro dirá o que vier. Já não tenho medo da solidão. Sei que o meu valor não depende de ter alguém ao lado.

A tempestade passou. O sol brilha.