—Essa copa tem uma mancha. Paola levantou-a contra a luz. O cristal brilhava como devia brilhar: sem marcas, sem resíduos, sem defeito visível. Mas Mónica Salas não olhava para a copa.

Olhava para Paola. —Troco-a agora mesmo — disse Paola, pegando noutra. Mónica afastou-se sem responder. Os passos batiam no mármore com a cadência de quem manda sobre dez pessoas como se mandasse sobre mil.
Natalia, a arrumar talheres a três metros, esperou que a gerente desaparecesse atrás do biombo. —Aquela copa estava perfeita. Eu sei. E tu não dizes nada?
—Não. —Não percebo como aguentas. Paola colocou a copa no sítio exacto sobre a toalha. —Aprende a aguentar.
Faz parte do trabalho. Mas não era. Não para quem passara quatro anos a estudar enologia em Barcelona, se certificara como provadora de nível três, recomendara garrafas que custavam mais do que o salário mensal de uma família inteira. Isso foi antes.
Antes de Valência. Havia dois anos, Paola era sommelier principal no Hotel Metrópolis. Uma ceia de gala com fundos europeus. Quarenta e seis convidados.
Tudo controlado. Duas horas depois do serviço, vinte e quatro pessoas começaram a sentir-se mal: náuseas, cólicas. Um directivo ficou dois dias internado. Os vinhos tinham sido adulterados.
Alguém os manipulou antes do serviço. Paola era quem os seleccionara, quem tinha acesso à adega. Antes de a investigação terminar, os media já tinham o nome e a foto dela. As redes sociais trataram do resto.
O caso foi arquivado por falta de provas conclusivas. Mas o dano ficou. Agora limpava copas no Cúpula 47, no 47. º andar da Torre Glòries.
Ganhava num mês o que antes ganhava em três dias. O suficiente para o aluguer e as mensalidades do advogado que ainda tentava restaurar a certificação. Trezentos euros por mês para o fundo de emergência.
O resto, para não se afogar.


