Você não pode fazer isso, King Shu. A voz veio de trás, cortante como vidro. Ele virou o rosto devagar, já sabendo quem era. Daisia estava ali, com os braços cruzados, o olhar fixo nele como se esperasse uma confissão.

— Fazer o quê, exatamente? — O que você fez com o Jaguar. Com o George. Não finja que não sabe.
King Shu não respondeu. A sala estava cheia de gente que fingia não ouvir. Ele sentiu o peso da acusação como um golpe seco no peito. Não era a primeira vez que alguém o confrontava assim, mas sempre doía do mesmo jeito.
— Eu não fiz nada que não fosse necessário. — Necessário? — Daisia deu um passo à frente. — Você transformou aquilo num circo.
Humilhou pessoas que confiavam em ti. E agora quer bancar o santo? Ele lembrou da noite. Do palco improvisado.
Das vozes que subiam e desciam como ondas. Tinha sido um evento, sim. Especial. Algo que deveria unir, mas que acabou separando.
O público queria sangue, e ele deu. Não pensou nas consequências. — Eles sabiam o que estavam a fazer — disse ele, baixando o olhar. — Sabiam?
— Daisia riu, mas o riso não tinha humor. — O George era teu amigo. Quase um irmão. E tu deixaste que o arrastassem para aquela merda.
O Jaguar perdeu o controlo. Tu viste. Todos viram. King Shu sentiu o estômago apertar.
Lembrava-se do olhar de George quando tudo desmoronou. Da forma como ele tentou segurar algo que já não existia. E o Jaguar, aos berros, a pontapear cadeiras como se o mundo todo fosse seu inimigo. Não era suposto ser assim.
— Eu tentei controlar a situação. — Tentaste? — Daisia sacudiu a cabeça. — Tu acendeste o fogo, King Shu.
E depois fingiste que eras bombeiro. Não funciona assim. Ele queria argumentar. Dizer que não era bem assim.
Que na altura lhe parecera a única saída. Mas as palavras morreram-lhe na garganta porque sabia que ela tinha razão. A verdade era cruel, mas também era simples. — O que queres que eu faça agora?
— perguntou ele, a voz mais baixa do que queria. — Não quero nada de ti. Já não quero nada de ti. O silêncio caiu sobre eles.
King Shu olhou para os pés. Para as mãos. Para tudo menos para ela. Sentia a vergonha a subir-lhe pela espinha como uma febre.
Daisia deu meia-volta e caminhou para a porta. Parou antes de sair. — Sabes o que mais me dói? — disse sem se virar.
— Não foi o que fizeste. Foi o facto de achares que está tudo bem. Que podes fazer qualquer coisa e depois vir com um discursinho bonito e acabar tudo resolvido. — Daisia…
— Não.
Já chega. Ela saiu. A porta fechou com um som que pareceu ecoar para sempre. King Shu ficou parado no meio da sala vazia.
O silêncio agora era pesado como uma lápide. A partir dali, tudo se desfez. As conversas tornaram-se curtas. Os olhares fugiam.
Os amigos que antes o rodeavam começaram a desaparecer um a um, como se ele tivesse uma doença contagiosa. E talvez tivesse. Talvez a traição fosse mesmo uma doença. Ele tentou falar com Steve, mas Steve não atendeu.
Tentou ligar a George, mas o número já não existia. O Jaguar, disseram-lhe, tinha ido para longe. Ninguém sabia para onde. Ou ninguém queria dizer.
Foi então que percebeu: não havia ninguém do lado dele. King Shu passou dias sozinho. Olhava para as paredes como se esperasse que elas lhe respondessem. De noite, as memórias vinham com força.
O rosto de George quando percebeu que tinha sido usado. A raiva no olhar do Jaguar. A deceção calada de Daisia. Ela estivera certa desde o início.
Ele acendeu o fogo e depois fingiu que era a vítima. Na terceira semana, decidiu ir atrás deles. Não para se desculpar. Não para justificar.
Apenas para dizer que sabia. Que entendia. Que a culpa era dele e de mais ninguém. Encontrou Daisia num café pequeno, perto do mercado.
Ela estava sentada sozinha, a beber qualquer coisa que fumegava. Quando o viu, os olhos endureceram. — O que é que queres? — Só falar.
— Já falámos. — Não, tu falaste. Eu ouvi. Agora quero dizer uma coisa.
Daisia suspirou, mas não se levantou. King Shu sentou-se à frente dela. As mãos tremiam-lhe ligeiramente. — Tiveste razão — disse ele.
— Em tudo. O que eu fiz foi errado. Não foi um erro, foi uma escolha. E escolhi mal.
Deixei que o ego falasse mais alto. Deixei que o palco me cegasse. Daisia olhou para ele por muito tempo. Depois baixou o olhar para a chávena.
— Sabes o que o George disse antes de ir embora? Disse que nunca mais ia confiar em ninguém. Que as pessoas usam o amor e a amizade como desculpa para tudo. Que é mais fácil magoar quando se chama ao outro de amigo.
King Shu sentiu o peito apertar. — Ele está certo. — Pois está. — Daisia mexeu o café devagar.
— Mas isso não resolve nada. Saber que estás errado não apaga o que fizeste. — Eu sei. — Então o que é que queres?
Que eu te perdoe? Que te diga que está tudo bem e que podes voltar a ser o King Shu de sempre? — Não. Quero que saibas que estou disposto a ficar com esta culpa.
A carregá-la. Não quero esquecer. Quero lembrar todos os dias para não voltar a fazer o mesmo. Ela ficou em silêncio.
O vapor do café subia entre eles como uma barreira. — O Jaguar está no hospital — disse ela de repente. King Shu sentiu o sangue gelar. — O quê?
— Não conseguiu lidar. Bebeu demais. Depois fez merda. Partiu o nariz a um tipo que olhou para ele de lado.
Agora está numa cama, sozinho, à espera de um julgamento. — Eu não sabia. — Claro que não sabias. Tu nunca sabes, King Shu.
Estás sempre demasiado ocupado a olhar para o teu próprio umbigo. Ele não respondeu. Não havia nada a dizer. Levantou-se devagar, sentindo o peso de cada músculo.
— Onde é que ele está? Daisia ergueu os olhos. — Não faças isso. — Fazer o quê?
— Ir lá. Achares que vais salvá-lo. Isso não é sobre ele. É sobre ti.
Sobre sentires que fizeste alguma coisa. — E se for? — King Shu parou. — Se for mesmo sobre mim, isso torna a ajuda menos real?
Ela não respondeu. Ele saiu do café sem olhar para trás. O ar da rua entrou-lhe nos pulmões como uma faca. O hospital ficava a quarenta minutos.
Ele caminhou todo o caminho. No hospital, encontrou o Jaguar numa cama pequena, virado para a parede. O quarto cheirava a desinfetante e a derrota. King Shu sentou-se na cadeira ao lado.
— Vim. O Jaguar não se virou. — Não te quero aqui. — Sei.
— Então vai-te embora. — Não vou. O silêncio durou muito tempo. King Shu ficou sentado, sem dizer mais nada.
Apenas presente. Apenas ali. Aos poucos, algo mudou. O Jaguar virou o rosto.
Os olhos estavam vermelhos. A cara inchada. Mas havia ali qualquer coisa. Uma fresta.
— Tu és um filho da puta — disse ele. — Sei. — Destruíste tudo. — Sei.
— E agora vens aqui como se isso resolvesse alguma coisa. — Não resolve. Mas vim na mesma. O Jaguar fechou os olhos.
A respiração tornou-se mais lenta. — Fica, então. King Shu ficou. Ficou a noite inteira.
Quando o sol entrou pela janela, o Jaguar dormia. King Shu olhou para ele e soube que o caminho ainda era longo. Que o perdão, se é que existia, não estava próximo. Mas pela primeira vez em muito tempo, não estava sozinho.
E isso, por agora, tinha de chegar.


