Pensou que tinha uma cita com um eletricista, mas era o multimilionário mais temido da cidade. Chegou quinze minutos atrasada, e ele já estava sentado, com o cabelo ligeiramente desgrenhado, como se o tivesse despenteado de propósito antes de entrar. —Soy Máximo —disse, estendendo a mão. Ela apertou-a.

Nenhum calo. Mão macia. —O eletricista? —perguntou, com uma sobrancelha erguida.
—Assim é. —Trabalho exigente. Muita voltagem, imagino. —Bastante voltagem.
Muito voltaico. —Voltaico não é um termo técnico. Ele riu, desconfortável. Ela não riu.
Ninguém que soubesse do que falava usava aquela palavra. —Em que te especializas? Casas, edifícios? —Instalações complicadas.
—E esse relógio faz parte do uniforme? Ele cobriu o pulso com a manga. —Velho. Um presente de uma cliente agradecida.
Camila sorriu por dentro. Não ia desmascará-lo ainda. Há meses que um encontro não lhe parecia tão interessante, e não pelas razões habituais. No final, ele perguntou se ela queria vê-lo outra vez.
—As luzes do meu atelier estão a falhar. Talvez precise de uma segunda opinião. —Sou especialista em diagnósticos complicados —disse ele. —De certeza que sim, eletricista.
Despediram-se debaixo de um candeeiro. Ela viu-o afastar-se com um passo demasiado confiante para o papel que fingia interpretar. Sacou o telemóvel. —O eletricista foi um desastre.
Mãos macias, diz “voltaico” como se fosse ciência, e um relógio que vale mais que o meu atelier. Mas é divertido. Vou vê-lo outra vez. Marisol respondeu: —Talvez seja um eletricista de luxo.
—Ou talvez seja outra coisa. Camila sorriu para a rua vazia. O que ainda não sabia era quanta razão tinha. No quadragésimo andar, Máximo desayunava com a cidade aos pés.
—Eletricista —murmurou, sorrindo sozinho. Ignacio, o seu assistente, entrou com a tablet. —Temos os números da fusão com a navegadora. Se o conselho aprovar, controlamos trinta por cento do transporte de carga do país.
—Cancela a minha reunião das duas. A do porto. Tenho um problema elétrico urgente. Ignacio anotou, sem compreender.
O telemóvel vibrou. Um número desconhecido, mas a sonrisa bastou. —Olá, eletricista. O meu atelier ficou sem luz.
Podes vir hoje salvar uma mulher em apuros? —O teu fiel eletricista está a caminho. Não tinha ferramentas nem ideia de como reparar um quadro elétrico. Mas sentia uma emoção que não sentia há anos.
Ignacio conhecia o patrão há oito anos. Vira-o despedir meia direção numa reunião, fechar negócios de centenas de milhões sem pestanejar. Chamavam-lhe o homem que não negocia duas vezes. Agora, esse mesmo homem estava prestes a comprar chaves de fendas numa ferreteria de bairro.
—Senhor, o conselho quer falar da sucessão. —Tenho trinta e quatro anos, Ignacio. —E eles têm memória. O seu pai fundou este grupo a pensar num herdeiro disponível, visível, previsível.
As últimas semanas não foi nenhuma das três coisas. —As últimas semanas fui feliz. —Alegro-me, senhor. Mas o conselho não vota felicidade.
—Diz ao conselho que estarei na reunião de amanhã. Hoje tenho outra prioridade. —Posso perguntar qual? —Um quadro elétrico que precisa de reparação urgente.
Duas horas depois, Máximo estava no atelier de Camila, de jeans e camiseta cinzenta. —Preciso de um tester —disse ela. —Qual recomendas? Ele olhou para a parede de ferramentas como se fosse um hieróglifo.
—Aquele amarelo. O detetor forte. —É o termo técnico. —Exato.
Ela conteve o riso e atirou-o para o carrinho. Percorreram a secção elétrica. —Cabo de cobre ou alumínio revestido? —Cobre.
Melhor condutividade. Mais eficiente. —Totalmente eficiente. Camila soltou uma risadinha.
À frente das ferramentas elétricas, Máximo pegou num berbequim e examinou-o com ar de entendido. —Impressionante. Binário. Motor sem escovas.
—Motor sem escovas? E tu como sabes isso, mestre do detetor forte? Ele pestanejou. Tinha-se denunciado.
—Vejo muitos programas de bricolage. —Em que canal? —O educativo. O de arte e canalizações.
—Um eletricista culto. De regresso ao atelier, ela deixou os sacos no chão. —Tudo isto faço eu. Resgato o que outros deitam fora.
Às vezes arranjo instalações de vizinhos que não podem pagar um eletricista a sério. Cobro o justo ou nada. —Tens talento, Camila. Nem toda a gente vê valor onde outros veem lixo.
Ela olhou-o, surpreendida pelo tom sincero. O jogo desvaneceu-se por um segundo. —Sabes qual é o segredo? —perguntou ela, passando a mão pelo rebordo de uma mesa meio lixada.
—Nunca deitar fora algo só porque está partido. Primeiro, olhar bem para o que se pode salvar. —Parece uma filosofia de vida, não só de móveis. —Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Ele ficou em silêncio, a olhar à volta. Cadeiras desengonçadas, gavetas sem puxadores, uma cômoda com as pernas estilhaçadas. Tudo à espera de voltar a ser útil. —Bem, eletricista —disse ela.
—Hora de sujar as mãos. As duas horas seguintes foram um desastre: um curto-circuito breve, uma ferramenta caída no próprio pé, uma mão presa atrás do quadro. —Tens a certeza de que sabes o que fazes? —perguntou ela, rindo, com o quadro reparado a meias e uma pizza pelo meio.
—Sou um homem de muitos talentos ocultos. —Ocultos é a palavra certa. Não és exatamente quem eu acho que és, pois não? Ele demorou a responder.
—Não. Mas ainda não te posso dizer quem sou realmente. Ela arqueou a sobrancelha, mas não insistiu. Essa noite, já sozinha, Camila ligou a Marisol.
—Acho que me estou a apaixonar por um desastre com relógio caro. —E isso assusta-te um bocado? —O meu pai também tinha segredos, lembras-te? E olha como acabou.
—O Máximo não é o teu pai. O teu pai escondia dívidas e outra família. Este esconde, não sei, um iate. São ligas diferentes.
—É que não quero construir nada sobre uma mentira outra vez. —Então dá-lhe tempo para te dizer a verdade. Camila desligou, a pensar no pai, nas caixas que a mãe tivera de vender depois de ele se ir. Cada cadeira reparada era uma forma de provar a si mesma que as coisas partidas também podiam ter um segundo capítulo.
Talvez as pessoas também. Os dias seguintes foram mensagens curtas e visitas com desculpas cada vez mais fracas. —Tenho uma fuga no telhado. Percebes de fugas?
—Sou eletricista, não canalizador. Mas posso tentar. —Isso não me tranquiliza nada. —Vou a caminho.
Ignacio notou-o de imediato. O patrão, o homem a quem os fornecedores chamavam “o que não negocia duas vezes”, passava as tardes com as mãos manchadas de tinta. —Senhor, o conselho pergunta se vai assistir à videochamada com os investidores da navegadora. —Diz-lhes que a reprogramem.
—É a terceira vez esta semana. —Então será a quarta. No sábado, Máximo apareceu com um convite para o Museu Nacional de Belas Artes. Caminharam entre as salas.
Em frente a uma fotografia urbana, ela parou. —O espaço vazio cria uma sensação de isolamento tremenda. Muito ao estilo Hopper. —O pintor tem essa mesma melancolia contida.
—Não deixa de me surpreender o teu conhecimento de instalações elétricas. —Vejo documentários de arte. Às vezes misturam temas de água, drenagem e pintura. —Os famosos documentários de arte e canalizações.
Ambos riram. Em frente a uma fotografia da cidade vazia ao amanhecer, ele ficou quieto. —Às vezes sinto que as pessoas não veem quem sou realmente. Só veem o que esperam de mim.
—Deve ser desgastante. —Cresci numa família onde o trabalho era tudo. Disseram-me quem devia ser. Por mais que tente, ninguém me vê como algo diferente do apelido que carrego.
Uma voz interrompeu. —Máximo? Quase não te reconheço, vestido tão casual. O que fazes aqui?
Era Silvana Reyes. O olhar dela deslizou para Camila com desdém. —Estou a trabalhar num projeto de instalações culturais. —Instalações culturais.
— Silvana entrecerrou os olhos. — Que curioso. Devem vir à minha gala no sábado. Todo o mundo empresarial vai estar lá.
—Temos uma emergência elétrica nesse dia. —Disparates. Reservo-vos dois lugares. Não aceito um não.
Quando ela se afastou, Camila conteve o riso. —Instalações culturais? Foi o primeiro que me veio à cabeça. —Essa mulher pode arruinar-me.
Agora também me arruinaria a mim. Mais te vale ter um bom plano para essa gala. Caminharam até um parque. —A tua família tem um negócio grande, não tem?
—Demasiado grande. Às vezes sinto que não há espaço para mim lá dentro. —Então faz o teu próprio espaço. Ninguém te obriga a seguir um guião escrito por outros.
Ele olhou-a com admiração e esperança. —Acho que é isso que estou a tentar fazer contigo. Não precisou de mais palavras. Beijou-a devagar, sem a urgência de quem mente.
—Desculpa por ter mentido. —Ainda não me disseste a verdade. —Sei. E é isso que mais me assusta.
—Então deixa de ter medo, eletricista. Na noite da gala, o salão estava repleto de empresários. Tomás Fierro abordou-os. —Não posso acreditar no que vejo.
— Olhou para Camila com descaramento. — E quem é a menina? A tua nova estratégia de relações públicas? —Sou Camila Rueda, assessora cultural do senhor Aranda.
—Assessora cultural? — repetiu Tomás, olhando para as mãos dela manchadas de verniz. — Nota-se que trabalha com as mãos. —Trabalho.
Tal como as pessoas que construíram cada edifício em que o senhor investe. Tomás pestanejou e afastou-se. —És brilhante — disse Máximo, apertando-lhe a mão. — E absolutamente perigosa.
Na varanda, mais tarde, ela apoiou-se no gradeamento. —Sabes o que é mais estranho em tudo isto? É que não faço ideia de quem és realmente. —Talvez seja só um tipo a tentar aprender a ser honesto.
Na segunda-feira, três diretores do grupo Aranda esperavam-no na sala principal. —Não vimos julgar a tua vida privada — disse o mais velho. — Vimos proteger a empresa que a tua família construiu durante três gerações. —A navegadora exige previsibilidade.
Não podem associar a marca a um acionista que aparece a fingir ser eletricista para conquistar uma desconhecida. —Essa desconhecida tem nome e não deve explicações a ninguém nesta sala. —Só pedimos discrição até fechar a operação. —A minha vida pessoal sempre foi minha.
Vocês é que se habituaram a que eu a subordinasse aos interesses da empresa. Isso acabou. —Esperamos que não te arrependas, Máximo. As pessoas como nós não costumam ter segundas oportunidades quando o mercado perde a confiança.
Ignacio alcançou-o no corredor. — Foi direto, senhor. —Há mais? Um fotógrafo vendeu uma imagem sua a entrar numa ferreteria.
Ainda não se publicou nada, mas circula. Em mãos de gente que sabe reconhecer uma oportunidade. Uma dessas pessoas é Silvana Reyes. O nome caiu como uma ameaça.
Uns dias depois, enquanto guardava umas ferramentas que Máximo deixara esquecidas, Camila encontrou um envelope entre os sacos. Abriu-o. Dentro, uma carta com o logótipo dourado e um nome em letras grandes: Grupo Aranda, direção executiva. Quando ele chegou, ela esperava-o com o envelope na mesa.
—O que é isto? —É de um cliente. Fazem instalações lá. Às vezes emprestam-me materiais.
—Direção executiva empresta-te materiais? Ele hesitou. —Um dia vais ter de me contar a verdade completa, Máximo. Não só pedaços.
—Sei. E quando esse dia chegar, vais perceber porque demorei tanto. —Mais vale que valha a pena a espera. Ela guardou o envelope na gaveta.
Não sabia que, dias depois, a verdade ia explodir sem precisar de envelope. Camila filmou um vídeo para as redes do atelier: a restaurar uma cadeira para uma vizinha. Ao fundo, Máximo ajustava um cabo, concentrado. O vídeo foi publicado.
Alguém com boa memória para rostos da alta sociedade congelou a imagem, ampliou-a, comparou-a com fotos de gala. Silvana Reyes não teve dúvidas. — Então o assessor de instalações culturais não era tão inocente. Levantou o telefone.
— Preciso de tudo o que tiver sobre Máximo Aranda dos últimos dois meses. E preciso da nota pronta para amanhã à noite. O relógio já tinha começado a contar. Uma semana depois, o celular de Camila não parava de vibrar.
O titular batia-lhe como uma bofetada: “O magnata mais temido do país fingiu ser eletricista para seduzir uma restauradora de móveis de bairro. ”
Silvana Reyes contava com pormenores como Máximo Aranda, o homem que despedira quinhentos funcionários numa única videochamada, jogava a ser trabalhador humilde. A frase que mais doeu: “Alguém que restaura móveis alheios para sobreviver não pertence aos salões onde ele se move. ”
— Camila, atende o telefone!
Era Marisol à porta do atelier. — Já vi. — Tens de falar com ele. — Não tenho nada a falar com um mentiroso.
Tomou um táxi. O porteiro do edifício reconheceu-a e deixou-a passar. Quando entrou no ático, Máximo estava diante da janela. — Isto é o que realmente és — disse ela, mostrando-lhe o ecrã.
— Ia contar-te. Juro. Estava a ir ter contigo. — Quando?
Antes ou depois de me tornares num chiste para a cidade inteira? — Nunca quis que isto acontecesse. — Mas aconteceu. E não por acidente.
Tu armaste tudo. Meteste-me no teu jogo. E agora eu sou o ridículo final. A miúda do bairro que se iludiu com o magnata.
— Camila, amo-te. — Tu não sabes o que é amar. Se soubesses, não terias escondido quem eras, sabendo o que a diferença entre nós significava se viesse a público assim, num titular escrito por alguém que me despreza. Pegou no saco e caminhou para a porta.
— Por favor, não vás. — Não estou a fugir de ti. Estou a fugir da tua mentira. A porta fechou-se com um golpe seco.
Máximo ficou imóvel, a olhar para o reflexo da própria ruína nos janelões. Toda a riqueza lhe pareceu completamente inútil. No dia seguinte, a galeria cancelou a participação de Camila na mostra. “Preferem manter o perfil do evento longe de polémicas mediáticas.
”
— É o de sempre — disse ela, sentada no chão do atelier. — As pessoas como eu só importam quando são uma anedota graciosa na vida de alguém como ele. — Isso não é verdade. — Perdi clientes, perdi a exposição.
E o pior é que uma parte de mim ainda pensa nele a cada cinco minutos. Do outro lado da cidade, Máximo levava três dias sem dormir. Cancelara todas as reuniões. — Senhor, a situação descontrolou-se — disse Ignacio.
— Os investidores estão preocupados. Os media não param de ligar. — Não me importa. — A única pessoa que me importava já não confia em mim.
— Se quer mesmo resolver isto, há uma maneira. Uma entrevista ao vivo com Ivone Casares. O senhor sozinho, sem advogados, sem assessores de imagem. Se quer limpar o seu nome, fale do sítio onde nunca fala: o coração.
— E se não quiser limpar o meu nome? — Então fale por ela. Para que ao menos ela saiba a verdade completa. Para que a gente entenda que o que aquela colunista disse sobre ela não tem nada a ver com quem é Camila.
— Faz os arranjos. Sem guião. Só eu. Nessa noite, a cidade parou diante dos ecrãs.
— Por que é que um homem com a sua fortuna decide fingir ser eletricista? — perguntou Ivone. — Porque estava cansado de que as pessoas calculassem quanto podiam tirar de mim antes de terminar uma conversa. Queria saber o que era ser visto sem o apelido Aranda colado à testa.
— E encontrou o que procurava? — Encontrei mais do que procurava. Encontrei uma mulher que me ensinou mais em umas semanas do que quinze anos de negócios. — O artigo que expôs esta história diz que alguém que restaura móveis alheios para sobreviver não pertence aos salões onde o senhor se move.
O que responde? — Respondo que essa frase é exatamente o problema deste país e das pessoas como eu, que cresceram a pensar que o dinheiro decide quem merece respeito. Camila Rueda trabalha com as mãos e arranja instalações de vizinhos sem cobrar quando eles não podem pagar. Eu assino contratos que despedem quinhentas pessoas numa videochamada.
Se alguém aqui não pertence a algum salão, sou eu. — Chamam-lhe o homem que não negocia duas vezes. Gosta dessa reputação? — É uma reputação que construí de propósito porque pensava que o medo era a única coisa que as pessoas respeitavam.
Ela mostrou-me que estava errado. Não me teve medo um único dia. Tratou-me como igual, mesmo que eu não o merecesse. — O que lhe diria se ela estivesse a vê-lo agora?
— Diria que peço desculpa. Que a mentira nunca foi sobre ela, mas sobre o meu próprio medo de ser visto tal como sou. Não espero que me perdoe. Só quero que saiba que nada do que sentiu foi falso, embora o meu nome o fosse.
A entrevista terminou. O clip tornou-se viral. Em casa, Camila viu tudo sem dizer palavra, com Marisol ao lado. — Estás bem?
— Não sei o que sinto. Estou zangada, mas também orgulhosa, de uma maneira estranha. — Tens direito às duas coisas ao mesmo tempo. Ele disse a verdade diante do país inteiro.
Sobre ti, sobre o classismo, sobre tudo o que Silvana escreveu. O custo da entrevista não tardou a aparecer, mas não foi o que Máximo esperava. A navegadora decidiu seguir com a parceria. “Preferem um sócio que assume erros publicamente a um que os esconde.
”
As semanas seguintes foram lentas. Camila voltou ao atelier, com menos clientes. A galeria que a cancelara convidou-a outra vez, depois do barulho mediático. Numa noite de exposição, numa velha casona de San Telmo, ela estava sozinha no meio da sala quando ele se aproximou.
— De todos os teus trabalhos, este parece o mais impressionante. — Máximo. Não planeava vir, mas vi o teu nome no catálogo e não consegui evitar. — Se vieste justificar-te outra vez, não precisas.
Já ouvi tudo o que tinhas a dizer naquela entrevista. Acreditei em ti. — Não venho justificar nada. Venho agradecer.
Por não me destruíres quando podias. Por continuares a trabalhar e mostrar a toda a gente que a Silvana estava errada. — Não o fiz por ti. Fi-lo por mim.
Mesmo assim, obrigado. Ele olhou para uma velha porta transformada em espelho. — O que achas? — Era uma porta partida.
Encontrei-a na rua. Lixei-a, pintei-a, transformei-a noutra coisa. Gosto de pensar que todos temos uma versão assim de nós mesmos. Mesmo eu.
Mesmo tu. — Se te dissesse que gostava de fazer parte da tua próxima restauração, aceitavas? — Depende. Pensas vir com o teu fato ou com a tua caixa de ferramentas?
— Com as duas. Ele tirou uma pasta. — Um projeto. Vou destinar parte do investimento do grupo Aranda a ateliers comunitários como o teu, em vários bairros.
Para ensinar ofícios e restaurar móveis sem custo para famílias que não podem pagar. Quero que tu o dirijas. — Porquê eu? — Porque tu já o fazias sem que ninguém te pedisse.
E és a única pessoa em quem confio para que isto não se transforme noutra estratégia de imagem corporativa. Ela folheou os papéis. Na primeira página, uma nota escrita à mão: “Este é um contrato sem mentiras. Se o assinares, é porque confias em mim outra vez.
”
— Preciso de pensar. — Espero o tempo que for preciso. Ela olhou para ele. — Talvez possamos falar do projeto com calma.
Amanhã. Com café. Sem câmaras. Sem máscaras.
— Amanhã. Prometo chegar pontual. — Mais te vale, eletricista. No dia seguinte, ela chegou cedo ao café.
Ele apareceu com um ramo de girassóis. — Bom dia. — Olha, o eletricista aprende depressa. — Tentei com três despertadores e café duplo.
Sentiram-se. Ele tirou um envelope do bolso. — Acordo de colaboração entre Máximo Aranda, o ex-eletricista mais trapalhão do país, e Camila Rueda, a restauradora que conseguiu arranjar mais do que móveis. Três pontos: sem mais mentiras, mesmo que sejam bonitas; o projeto será um espaço para construir, não para esconder; qualquer desacordo resolve-se com café e paciência.
Muito legal, tudo. Redigi sem advogado. — Isso explica a ortografia. Ela assinou.
— Sabes? — disse ele. — Acho que este é o contrato mais importante da minha vida. E o único que não tem cláusulas ocultas.
Um ano depois, o projeto chamava-se Raízes do Sul e estendia-se a quatro bairros. Máximo e Camila abriam o atelier comunitário. Uma senhora idosa esperava à porta com uma cadeira velha. — É aqui que arranjam coisas de graça?
Disseram-me que era pago por gente rica. — Aqui não há enganos — respondeu Camila. — E desta vez a gente rica não se arrepende. Máximo aproximou-se, com as mãos já manchadas de serrim.
— Deixa-me ver? — O senhor também repara? — Estou em formação contínua. Ficaram a tarde inteira a devolver a cadeira à vida.
A senhora abraçou Camila à despedida. — Deus a abençoe, filha. Há muito que ninguém me tratava como se a minha cadeira velha importasse. — Sempre importou.
Só precisava de alguém que se desse ao trabalho de olhar bem para ela. Essa noite, sozinhos, Máximo abraçou-a por trás enquanto fechavam o atelier. — Sabes o que pensei hoje? Que isto é a primeira coisa que fiz na vida que não tem nada a ver com ganhar.
— Bem-vindo ao outro lado, eletricista. — É um lado muito melhor que o outro. — Ainda te falta descobrir metade das coisas boas que tem. — Então temos tempo de sobra para isso.
Ninguém na cidade voltou a chamar-lhe o mais temido. Com o tempo, sem que ele o procurasse, começaram a chamar-lhe de outra forma: o que se animou a perder tudo por dizer a verdade e acabou a ganhar o único que realmente importava. Entre ferramentas e sonhos partilhados, entenderam que, tal como a madeira velha, as pessoas também podiam restaurar-se.
Só precisavam de tempo, honestidade e mãos dispostas a construir sem medo.


