— São as minhas análises, Apolónia. Diz-me de onde veio esta merda. A voz dele não tinha raiva, nem calor. Era gelo. Ela leu o diagnóstico e o sangue fugiu-lhe do rosto. Tentou negar, pediu um…

— São as minhas análises, Apolónia. Diz-me de onde veio esta merda. A voz dele não tinha raiva, nem calor. Era gelo. Ela leu o diagnóstico e o sangue fugiu-lhe do rosto. Tentou negar, pediu um...

Ele entrou em casa e ela estava na cozinha, a preparar o jantar. Ao ouvir a porta, espreitou e sorriu. — Gaspar, chegaste mais cedo. Estou a fazer o jantar.

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Ele não respondeu. Atravessou a sala, sentou-se no sofá e pousou na mesa de centro uma folha de papel dobrada várias vezes. — Gaspar, o que se passa? Ela enxugou as mãos no avental e veio ter com ele.

O silêncio era pesado. — Senta-te. Ela sentou-se. A voz dele não tinha raiva, nem calor.

Era uma voz que ela nunca tinha ouvido. Ela pegou no papel, desdobrou-o. Leu as linhas pequenas, os termos médicos, os números. No final, o diagnóstico.

O sangue fugiu-lhe do rosto. — O que é isto? — murmurou, e já sabia. Ele ergueu os olhos.

Vazios, gelados. — São as minhas análises, Apolónia. Sabes ler? Diz-me de onde veio esta merda.

— Eu não sei. Pode ser um erro. Talvez tenham trocado os resultados no hospital. — Para.

Não insultes a minha inteligência. O médico disse que só se transmite por via sexual. O período de incubação é de semanas. Eu não estive com mais ninguém.

Nem antes, nem depois da tua viagem. Portanto, a fonte és tu. Cada palavra caía como uma pedra na água parada do mundo que se desfazia. Apolónia olhou para ele e percebeu que o muro de mentiras que construíra nas últimas semanas se tinha desmoronado.

— Gaspar, perdoa-me. Não foi por querer. Aconteceu. — Conta.

Quem. Onde. Quando. Ela cobriu o rosto com as mãos.

Os ombros tremiam. — No comboio. Quando ia para casa da minha mãe. O vizinho do compartimento.

Bebemos, conversámos. Foi uma noite, Gaspar, uma noite estúpida. Não sei como aconteceu. Não significou nada.

Só te amo a ti. Ajoelhou-se à frente dele, tentou agarrar-lhe as mãos, mas ele afastou-se como se queimasse. — Não me toques. Percebes?

Não me toques. Lembrou-se de como a esperara na estação, com o ramo de crisântemos brancos, o coração cheio. E ela, naquele momento, já não era dele. — Recebi-te com flores.

Disse que sentira a tua falta. Dormi contigo na noite em que voltaste. E tu trouxeste-me um presente. Sabes que agora tenho de me tratar a vida inteira, fazer exames, viver com medo que volte?

Pensaste nisso? — Não sabia — gritou ela entre lágrimas. — Não pensei que fosse acontecer isto. Pensei que era só um jogo.

— Um jogo. Agora é só o divórcio. Levantou-se, foi até à janela, de costas para ela. — Faz as malas.

— O quê? — Ela ergueu o rosto inchado. — Faz as malas e vai para casa da tua mãe, ou para o tipo do comboio. Não me interessa.

Mas não ficas aqui. — Por favor, dá-me uma oportunidade. Foi um erro. Um erro.

Vou fazer tudo para reparar. Serei a melhor mulher do mundo. Perdoa-me. — Já não és minha mulher.

Deixaste de o ser no segundo em que abriste as pernas a um desconhecido. O apartamento é meu, os meus pais ofereceram-no no casamento. Prepara-te. Falava com uma calma aterradora, como se estivesse a discutir a lista de compras.

— Gaspar, para onde é que eu vou? O que é que digo à minha mãe? — Isso é o teu problema. Devias ter pensado nisso quando fazias charme a um desconhecido no compartimento.

Saiu da sala, bateu com a porta. Um livro caiu da estante. Ela ficou sozinha, de joelhos, no meio dos destroços da vida que tinha. Olhou para o ramo de crisântemos ainda no vaso.

Pareciam flores de funeral. Uma hora depois, arrastou a mala até à entrada. Ele estava sentado na cozinha, a beber água, a olhar para o vazio. Não a ajudou.

Não a olhou. — Deixa as chaves na cómoda. Ela deixou-as. Abriu a porta.

Saiu. O elevador demorou a chegar. Ficou a olhar para o mosaico do chão, que tinham escolhido juntos há dois anos, a rir, a discutir sobre o tom de bege. O elevador chegou.

As portas abriram-se. Ela entrou, carregou no rés-do-chão. Enquanto a cabine descia, sentiu que a vida dela tinha acabado. Não a vida de ontem, mas a vida que construíra durante três anos e que julgava indestrutível.

A mãe recebeu-a em silêncio. Viu-lhe a cara, a mala, e percebeu. Perguntou apenas:

— O Gaspar? Ela acenou, a chorar.

A mãe suspirou, pegou na mala e levou-a para o quarto. O pai, que via televisão, desligou o som e olhou longamente para a filha. No olhar dele não havia julgamento. Havia algo pior: desilusão.

Levantou-se, foi para a cozinha sem dizer palavra. Aquele silêncio pesava mais do que qualquer reprimenda. Ela ficou sentada no sofá da casa dos pais, a segurar uma chávena de chá quente. Do outro lado da parede, o relógio cuco batia os segundos de uma nova vida, vazia e vergonhosa.

Na nossa cidade, no nosso antigo apartamento, eu estava sentado no sofá a olhar para o ecrã preto da televisão. O tratamento ia ser longo e desagradável. Mas mais desagradável era o vazio no peito. Não sabia se algum dia voltaria a confiar numa mulher, se conseguiria esquecer aquele contraste: o ramo de crisântemos brancos e o papel com o diagnóstico.

Lá fora, chovia. Uma chuva fria, fora de época. Batia no vidro, marcava um ritmo que se parecia com o som das rodas do comboio que levara para lado nenhum a felicidade dos outros.