Acordei e soube que algo estava diferente. A voz dele chegava abafada, como se viesse de longe. Querida, está acordada? Teve um pesadelo?

Olhei para o copo de água que ele estendia. Sabia o que tinha ali. Na vida passada, eu tinha bebido. Dessa vez, apenas observei a mão dele, firme, paciente.
Tive uma dor de cabeça súbita. Não vou conseguir fazer a trilha hoje. Ele disfarçou. Mandou a prima subir a montanha sozinha.
E eu ouvi, em silêncio, o plano que ele não sabia que eu já conhecia. A corda de escalada que ela tinha cortado na mochila que ele levaria. Você está nervoso, Wang Rui? É só sua prima, não é?
Ele bufou, me chamou de boba. Saiu correndo para salvar a amante grávida. Pegou a mochila com a corda sabotada. Dessa vez, fiquei em casa.
Dessa vez, quem subiu a montanha foi ele. O telefone tocou minutos depois. Era a Ai Li, desesperada. O sinal caiu.
A corda arrebentou. Mas ele não morreu. Uma árvore torta amorteceu a queda. Apenas ferimentos leves.
Eu estava no hospital quando ouvi a notícia. Olhei para o meu ventre e soube que, naquela vida passada, meu filho não tinha tido a mesma sorte. O médico entrou no quarto. Seu olhar era grave.
Perdemos o bebê. Havia uma substância tóxica no seu sangue. Veneno lento. Acumulou por meses.
O veneno. O mesmo que ele colocava na minha sopa. No meu café da manhã. Em cada gesto que eu achava ser cuidado.
Não tinha sido só uma vez. Ele vinha me envenenando devagar, dia após dia, desde antes do casamento. Sentei na cama do hospital e olhei para a cicatriz no meu pulso. A cicatriz que ele disse ter sido um acidente.
Não era acidente. Era lembrança. Quando a Ai Li apareceu no corredor, fingindo preocupação, eu já não era a mesma. Quando o Wang Rui entrou no quarto, mancando, fazendo pouco da minha dor, eu já tinha decidido.
Sorri. Vou organizar uma exposição de arte, Wang Rui. Para a empresa. Ele achou que era uma boa ideia.
Uma chance de se aproximar da família Lu, do herdeiro que podia salvar a empresa. Ele não percebeu que eu estava construindo o palco para a queda dele. A Ai Li veio me visitar em casa. Toda dengosa, falando do bebê dela.
Que coincidência, Ai Li. Você também está grávida. Ela nem disfarçou o sorriso. Na noite da exposição, vesti o melhor vestido.
Recebi os convidados com elegância. O Lu Jinghao chegou e me olhou de um jeito que eu não via há três anos. Ele segurou minha mão. Só precisava de uma desculpa para vê-la de novo, Lin An’an.
Eu ri, mas não tive tempo para devaneios. O show ia começar. Onde está o Wang Rui? Perguntei em voz alta para todos.
Ninguém sabia. Ah, ele deve estar resolvendo algo urgente. Vou dar início à cerimônia. Levei todos para a sala escura, onde uma pintura rara era exibida.
Disse que os monitores mostrariam cada detalhe da obra. Os convidados olharam para a tela grande. O que apareceu não foi um quadro. Era o Wang Rui e a Ai Li, se beijando.
Nus. Num quarto escuro. O silêncio durou dois segundos. Depois, veio o grito.
No telão, eles estavam tão absortos um no outro que nem perceberam as câmeras. Eu tinha instalado cada uma com cuidado. Sabia que eles usariam a sala vazia. Senhoras e senhores, esta é a obra que decidi expor como surpresa.
A multidão explodiu. Os repórteres avançaram. O conselho da Lin Corporation ficou branco. Lin An’an, sua maldita!
Wang Rui apareceu correndo, sem calças, tentando se explicar. A Ai Li vinha atrás, chorando, grudadinha nele. Você armou tudo isso para me destruir? Armar?
Eu? Repeti, calma. Qual de nós passou anos tramando, Wang Rui? Quem me envenenou devagar?
Quem cortou a corda que quase matou você mesmo? Ele ficou mudo. A partir de agora, você está desligado da Lin Corporation. O divórcio sai amanhã.
E você não leva nada. Lembra do pacto antenupcial? Ele lembrou, sim. Eu vi no olhar dele.
Os seguranças o arrastaram para fora. A Ai Li foi atrás, histérica, ainda agarrada ao ventre. —
As coisas se aceleraram depois disso. Wang Rui ficou desesperado.
Perdeu tudo. A casa, o carro, o respeito. Ele apareceu no meu escritório uma semana depois. Estava irreconhecível.
Barba por fazer, olheiras profundas. A paralisia facial tinha começado. Você… Você fez isso comigo, sua bruxa.
A sopa… A mesma sopa que eu te dava? Inclinei a cabeça. É justo, não acha?
Você me envenenou para me tornar uma idiota. Eu só devolvi o tratamento. Ele tentou gritar, mas a boca já não obedecia direito. A Ai Li apareceu na porta, pálida.
Os olhos dela estavam vermelhos de chorar. Lin An’an, você não sabe de nada. Aquele bebê no meu ventre não é dele. É do meu amante.
Wang Rui congelou. O quê? Ela riu, amarga. Acha mesmo que eu ia querer ter um filho de um fracassado igual você?
Usei você. Usei seu dinheiro. O bebê que perdeu, An’an, foi por minha causa. Envenenei sua comida pessoalmente.
Wang Rui avançou para ela. Os dois se engalfinharam no chão do meu escritório. Assisti por um longo minuto. Depois, virei as costas e saí.
—
O julgamento foi rápido. Homicídio doloso, tentativa de assassinato, cárcere privado. A sentença foi prisão perpétua. Ela não aceitou.
Gritou, esperneou, ameaçou. Mas os algemas não saíram mais. —
Fiquei sozinha na cobertura. Olhei para o céu.
Mamãe, papai… Consegui. O Lu Jinghao apareceu na minha porta uma semana depois. An’an, preciso te levar a um lugar.
Ele me levou para o topo de uma colina. O vento soprava forte. Comprei duas estrelas. Uma para seu pai.
Outra, mais brilhante, para o seu filho. Eles nunca foram embora. Estão só em outro lugar. Olhei para o céu noturno.
As lágrimas vieram. Lu Jinghao ajoelhou. Lin An’an, já te amei em silêncio por três anos. Perdi a chance uma vez.
Não vou perder de novo. Case comigo. Ajoelhei ao lado dele. Na verdade, eu já morri uma vez.
O destino me deu uma segunda chance. Ele segurou minha mão. Então sou grato ao destino por ter me dado a chance de não te perder de novo.


