O som da travessa a estilhaçar-se no chão gelou-me por dentro. A caldeirada espalhou-se, os legumes e o peixe dourado misturados com o molho, uma mancha quente na noite fria. Olhei para o João,…

O som da travessa a estilhaçar-se no chão gelou-me por dentro. A caldeirada espalhou-se, os legumes e o peixe dourado misturados com o molho, uma mancha quente na noite fria. Olhei para o João,...

O som da travessa a estilhaçar-se no chão de mármore gelou-me por dentro. A caldeirada espalhou-se pelo chão, os legumes e o peixe dourado misturados com o molho, uma mancha quente no meio daquela noite fria. Olhei para o João, que cambaleava à minha frente com o hálito a álcool. — Estou farto disto.

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Preciso de novidade, não de uma mulher velha e chata sempre à volta de uma mesa fria. Virou-me as costas e subiu as escadas sem olhar para trás. Fiquei sozinha no meio da sala de jantar caótica, com os cacos a sangrar-me a mão. Não senti dor.

A dor no peito era maior. Aquela noite não subi para o quarto. Sentei-me no sofá a olhar pela janela, a chuva a bater no vidro. O meu coração estava tão frio como aquela caldeirada desperdiçada.

Talvez uma sopa se possa reaquecer, mas um coração partido não. Na manhã seguinte, um sol pálido entrou pelas cortinas. O João já tinha saído, sem um bilhete, sem uma palavra. O silêncio da casa era absoluto.

Peguei no telemóvel para ver as mensagens e, ao deslizar o dedo pelo ecrã, uma fotografia parou-me o olhar. Era a Catarina, a nova secretária do João. A imagem mostrava a mão de um homem a segurar a dela. No pulso do homem, um relógio com bracelete de cabedal castanho-escuro e mostrador romano.

O meu coração parou. Era o relógio que lhe oferecera no nosso décimo quinto aniversário de casamento. Reconheci cada detalhe, o pequeno arranhão no vidro, a costura da bracelete. A legenda dizia: *Ter alguém que amo a cuidar de mim quando estou doente é o melhor remédio.

Obrigada, meu amor. * Publicado às onze da noite anterior. Na hora em que eu esperava por ele com a caldeirada fria. Dei por mim a tremer, a clicar no perfil dela, a ver mais fotografias.

Jantares em restaurantes de luxo, malas caras, perfumes. Tudo coincidia com as viagens de negócios e as reuniões até tarde que o João inventava. Desliguei o telemóvel e atirei-o para o sofá. Não queria ver mais nada.

Sentei-me, fechei os olhos, e um plano começou a formar-se na minha cabeça. Se ele já não sentia nada por mim, também não precisava de continuar a ser leal. Fui ao escritório, abri a gaveta onde guardava o álbum de fotografias antigas. Vi-nos na altura em que éramos pobres, ele de bicicleta velha, eu a pintar num quarto minúsculo nos arredores de Lisboa.

Lembrei-me da promessa dele, no Tejo, a segurar a minha mão: *Ana, aguenta mais um pouco. Quando tivermos sucesso, prometo compensar-te para o resto da vida. *

Ele cumpriu a promessa a cinquenta por cento. Tínhamos a casa grande, os carros, o dinheiro.

Mas a compensação que importava, o amor, ele esqueceu-se. Fechei o álbum. Liguei à Sofia, a minha melhor amiga. — Decidi, Sofia.

Não vou esperar mais. Quero viver para mim. Ela ficou em silêncio um momento e respondeu:

— Eu compreendo. Estarei sempre do teu lado.

Comecei a preparar a minha saída. Nas semanas seguintes, o ambiente em casa tornou-se pesado. O João continuava a sair cedo e a chegar tarde, frio e irritadiço. Eu ignorei-o.

Já não lhe perguntava para onde ia nem se tinha jantado. Vivia como uma sombra, a cumprir apenas os deveres de governanta. Um dia, ele chegou mais cedo que o habitual. Ao entrar, chutou os sapatos para o lado e procurou os chinelos de plástico azuis que eu costumava deixar arrumados na sapateira.

O lugar estava vazio. — Onde estão os meus chinelos? — gritou. Levantei-me calmamente, fui à sapateira, tirei um saco de plástico preto com os chinelos velhos e deitei-o no caixote do lixo.

— Estavam demasiado gastos. Deitei-os fora. O João ficou vermelho de raiva, apontou-me o dedo, chamou-me inútil, disse que vivia à custa dele. Esperei que terminasse o acesso de fúria e respondi:

— Já acabaste?

Se sim, vai lá ter. Não deixes o teu parceiro de negócios à espera. Virei-lhe as costas e saí. Pela primeira vez em vinte anos, eu tinha respondido.

Contratei um detetive privado através de um contacto discreto. Dias depois, encontrei-o num café. Ele colocou um envelope castanho sobre a mesa. — Veja, mas mantenha a calma.

Dentro estavam fotografias. O João a abraçar a Catarina pela cintura à entrada de um hotel. Jantares à luz de velas, beijos no elevador. E uma pen USB com gravações.

Ele prometia à amante que se ia divorciar da velha em casa. Chorei até não ter mais lágrimas. Depois enxuguei o rosto, paguei ao detetive e fui para o escritório do advogado com todas as provas. Entreguei-lhe tudo e pedi-lhe que redigisse o pedido de divórcio unilateral.

Verifiquei a conta bancária conjunta. O ecrã mostrou transferências regulares para a Catarina: dois mil, cinco mil, por vezes dezenas de milhares de euros. Somei mais de cem mil euros. Enquanto isso, ele recusava dar-me dinheiro para medicamentos dos meus pais, dizia que a empresa estava em dificuldades.

E eu acreditava. Os bens mais valiosos estavam em meu nome. Foi a previdência dos meus pais, que exigiram que eu ficasse como titular. O João, na sua arrogância, nunca suspeitou.

Anunciei a venda do apartamento através de uma agência imobiliária. Em poucos dias apareceu um casal de professores reformados. Gostaram da casa, pagaram o sinal. Assinei o contrato e mudei o código do cofre.

Depois contactei o Thiago, o antigo sócio do João, que ele tinha traído e afastado da empresa. Encontrámo-nos num restaurante discreto. — Quero vender-lhe todas as minhas ações por um preço abaixo do mercado. Quero que ele perca a empresa.

O Thiago olhou-me, compreendeu a minha dor. Assinámos o contrato. No meu último dia naquela casa, arrumei uma pequena mala: algumas roupas simples, o meu material de pintura, uma fotografia dos meus pais. Deixei na mesa da sala as chaves da casa, as chaves do carro e a minha aliança de casamento.

Chamei um táxi e, ao sair, não olhei para trás. Na estação, comprei um bilhete para Sintra. Tirei o cartão SIM do telemóvel e deitei-o ao lixo. A partir daquele momento, a Ana esposa do diretor João deixou de existir.

Existia apenas a pintora Ana. —

O João chegou à porta de casa já depois da meia-noite, embriagado e cheio de si. O contrato com o parceiro estrangeiro tinha sido assinado. Ia dar uma lição à Ana por não ter atendido o telefone.

Mas a chave não rodava na fechadura. Bateu com força. Uma luz acendeu-se dentro de casa. A porta abriu-se.

Um homem estranho, de óculos e pijama às riscas, olhou-o com irritação. — Quem procura? — Eu sou o João, o dono desta casa. Onde está a minha mulher?

O homem franziu a testa. — O senhor está enganado ou bêbado. Comprei esta casa há dias. A antiga dona chamava-se Ana, vendeu-ma.

Vá fazer barulho para outro lado. Fechou-lhe a porta na cara. O João ficou paralisado. Ligou para a Ana.

O telefone desligado. Ligou para os sogros. A sogra respondeu com voz distante:

— A Ana não veio para aqui. Não ligues mais.

Desligou. Ele correu para o hotel, ligou o portátil, entrou na conta bancária conjunta. O saldo era de poucos euros. As transferências para contas desconhecidas tinham esvaziado tudo.

Na manhã seguinte, foi para a empresa. O ambiente estava estranho. Os funcionários cochichavam. A secretária disse-lhe que o conselho de administração tinha convocado uma reunião de emergência.

Ao abrir a porta da sala, o Thiago estava sentado no lugar dele. — O que fazes aqui? — gritou. O advogado levantou-se.

— Senhor João, o senhor Thiago é agora o acionista maioritário, com 51% das ações. A sua esposa transferiu-lhe a totalidade das ações dela. O Thiago olhou para ele friamente. — A Ana pediu-me para te dizer que este é o último presente que te dá.

O João sentiu o chão fugir-lhe. Olhou para os membros do conselho, que o fitavam com pena ou satisfação. O Thiago declarou:

— Está demitido. Por favor, entregue as suas responsabilidades ainda hoje.

Ele saiu a cambalear, foi à casa de banho, lavou o rosto. O telemóvel vibrou. Uma mensagem da Catarina:

*João, ouvi dizer que faliste. É melhor acabarmos.

Não estou habituada a uma vida de pobreza. *

Começou a rir, um riso amargo, sozinho na casa de banho. Quando voltou ao escritório para recolher os seus pertences, o Thiago esperava-o com dois seguranças. — O carro é da empresa.

Deixe as chaves e o cartão de crédito. Ele atirou tudo para cima da mesa. Saiu do edifício a pé, com uma caixa de cartão. O sol do meio-dia bateu-lhe na cara.

Sentou-se num banco de jardim, sem dinheiro, sem casa, sem ninguém. Naquela noite, debaixo de chuva, bateu à porta do prédio onde a Catarina vivia. Um homem corpulento abriu. — Quem procuras?

— A Catarina. Ela apareceu ao fundo, vestida com um roupão de seda que ele lhe tinha comprado. — Oh, o grande presidente João. Ouvi dizer que faliste.

O que fazes aqui? — Esta casa, o carro, fui eu que te dei. Como podes… Ela riu-se.

— Se me deste, é meu. Estás velho e pobre. Quem te quer? O homem empurrou-o para fora.

— Desaparece. A porta bateu. Ficou na rua, debaixo da chuva, a tremer. Lembrou-se da Ana, da caldeirada que tinha virado, das noites que ela esperava acordada.

Começou a chorar. — Ana, eu errei. Onde estás? O vento levou-lhe as palavras.

Em Sintra, a chuva tinha parado. Eu estava de pé no meio do jardim da pequena casa de madeira, as hortênsias azuis a abanar ao vento. O ar cheirava a terra molhada e a pinheiros. De manhã, acordava cedo, preparava chá, pintava.

À tarde, passeava pela serra. À noite, sentava-me à janela a ouvir os grilos. A paz que sentia não tinha preço. Reencontrei o professor Matos, o meu antigo mestre de pintura.

Ele deu-me força para expor os meus quadros. Chamei a exposição *Serenidade*. Foram vendidos quase todos. Um dia, recebi uma mensagem da Sofia.

Contava que o João estava na miséria, a pedir comida nos parques. Li, e o meu coração não se alegrou nem se entristeceu. Apenas senti um vazio calmo. Respondi: *Cada um tem o seu destino.

Espero que ele encontre a paz. *

Guardei o telemóvel e voltei para o cavalete. Numa tarde de outono, levei as tintas para a colina atrás de casa. O vento soprava suavemente.

Comecei a pintar o pôr do sol. O professor Matos passou por ali e parou. — O quadro está lindo, Ana. Transmite paz interior.

Sorri. — Obrigada, professor. Foi graças a si e a este lugar que descobri a verdadeira felicidade. A felicidade é simplesmente ser quem somos, fazer o que amamos.

O sol desceu, cobrindo o vale com uma luz dourada. Arrumei o material e desci a colina. Lá em baixo, a minha pequena casa de madeira estava iluminada. Uma luz quente saía da janela.

Respirei fundo, senti o ar limpo da serra, e sorri. A vida é tão bela quando sabemos viver para nós mesmos.