Estava a abrir um presente quando o meu primo, inspetor da polícia, me ligou a gritar: “Se queres viver, tranca as portas e esconde-te na adega agora. ” Achei estranho, mas obedeci. Lá fora, a chuva batia contra as portas de vidro. Dentro da quinta com vista para o Douro, o ambiente era quente e sereno.

Música suave, velas a refletir-se nas rosas vermelhas. Hoje era o nosso quinto aniversário de casamento. Sentei-me à cabeceira da mesa. Do outro lado, o Diogo cortava meticulosamente cada pedaço do bife.
Sob a luz amarelada, o rosto dele parecia elegante, os olhos por trás dos óculos de aros dourados brilhavam com ternura. Como médica anestesista, o cuidado dele era o meu melhor sedativo. Ele colocou o prato à minha frente, serviu vinho em duas taças de cristal. “Um brinde ao nosso quinto aniversário.
Desculpa, o presente ficou retido na alfândega. ”
Sorri. “Não preciso de presentes. Só preciso que estejas ao meu lado.
”
“Bebe, meu bem. Escolhi este vinho a dedo. ”
Acenei, levando a taça aos lábios. Mas o telemóvel vibrou.
O ecrã iluminou-se: Miguel, o meu primo. Ele raramente ligava a esta hora. “Atende, amor. Pode ser urgente.
”
Deslizei o dedo. Antes de dizer olá, ouvi um rugido abafado por sirenes e chuva. “Sofia, não bebas esse vinho. Arranja uma desculpa e foge.
Tranca-te. ”
Fiquei petrificada. “O Diogo fez um seguro de acidentes em teu nome no valor de 2 milhões de euros. O beneficiário é ele.
O contrato entra em vigor à meia-noite. Ele está afogado em dívidas a agiotas. Quer matar-te para ficar com o dinheiro. ”
Aquelas palavras foram marteladas nos meus tímpanos.
Levantei os olhos para o Diogo. Ele sorria, mas sob a luz trémula das velas, aquele sorriso parecia demoníaco. Os dedos dele apertavam a toalha com tanta força que tremiam. Respirei fundo, forçando a calma.
Pousei a taça, fingi uma careta. “Diogo, este vinho não respirou o suficiente. Lembras-te da garrafa de vinho do Porto que o meu pai nos ofereceu? Vou buscá-la.
”
Ele franziu o sobrolho, mas acenou. Levantei-me, os joelhos a fraquejar. Caminhei em direção à porta da adega. Sentia o olhar dele cravado nas minhas costas.
Assim que passei pela porta, fechei-a. Era uma porta de aço à prova de fogo. Rodei o trinco. Uma, duas, três voltas.
Encostei-me à porta fria, deslizei até ao chão. Uma dormência começou a espalhar-se da língua para a garganta, para os membros. A visão ficou turva. Lembrei-me do chá de cidreira que ele me dera antes do jantar.
Sucinilcolina. Relaxante muscular de ação rápida. Em overdose, causa paralisia respiratória e morte. Bam, bam, bam.
Pancadas na porta. “Sofia, abre. Por que trancaste a porta? ” A voz dele já não tinha ternura, era o rosnar de uma besta.
O telemóvel vibrou. Mensagem do Miguel: “Resiste. A polícia chega em 3 minutos. ”
Três minutos.
Para alguém a ser paralisado por um químico, era a fronteira entre a vida e a morte. Mordi o lábio com tanta força que sangrou. Usando as últimas forças, atirei-me contra a prateleira de carvalho. Crash.
Dezenas de garrafas partiram-se. O líquido vermelho escuro espalhou-se como sangue. Peguei num caco de vidro, fechei os olhos e fiz um corte longo no braço esquerdo. A dor lancinante afastou a sonolência.
Deixei-me cair no meio da confusão, numa posição contorcida. A porta abriu-se de rompente. O Diogo irrompeu com um taco de golfe. Mas nesse instante, as sirenes da polícia, os passos apressados, os feixes de luz das lanternas desabaram sobre ele.
Eu estava caída no chão frio, o sangue a escorrer, misturado com o vinho tinto. O Diogo atirou o taco para o lado, ajoelhou-se junto a mim. “Sofia, meu Deus, o que te aconteceu? ” As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.
Qualquer pessoa ficaria comovida. Eu senti apenas repugnância. O Miguel entrou com a equipa. Fez sinal para chamar uma ambulância.
“Senhor Diogo, afaste-se. ”
No hospital, o Diogo ficou de vigília. Representou o papel de marido dedicado. As enfermeiras olhavam para ele com admiração.
Abri os olhos, fiz de conta que estava confusa. “Quem… quem é você? ”
O Diogo ficou imóvel. Depois, um brilho estranho nos olhos dele.
Alívio. Ele pensou que eu tinha perdido a memória. “Sou o Diogo, o teu marido. Caíste, mas vais ficar bem.
”
Fingi amnésia durante dias. Ele começou a usar táticas de gaslighting. Escondia objetos, culpava a minha memória. Espalhava rumores de que eu estava instável.
Mas eu tinha um microfone escondido na bainha do pijama. E uma microcâmara no escritório dele. Descobri que ele tinha uma amante, a Catarina, vice-diretora comercial. E que ela estava grávida.
Segui-os a um café. Ouvi-os planear a minha morte. “Aquela maluca está quase a perder o juízo. Só precisa de mais um empurrãozinho”, disse a Catarina.
O Diogo: “O seguro de vida de 2 milhões será pago assim que houver uma certidão de óbito. ”
Cada palavra foi corroendo a minha alma. Voltei a casa. Ele tinha aberto a válvula do gás e selado as janelas com fita cola.
O meu olfato de anestesista salvou-me. Depois, tentou eletrificar a água da banheira. A caneta de teste emitiu um som agudo. Despejei a água.
A pressão das dívidas apertava. Ele sugeriu vender um apartamento meu. Eu já tinha tratado de congelar os bens. Convidei-o para um fim de semana na Serra da Estrela.
Disse-lhe que tinha feito um testamento deixando tudo à minha mãe. Ele ficou furioso. Na varanda do chalé, durante a tempestade, ele confessou tudo. “Amo o dinheiro mais do que tudo.
Se tu morreres, eu tenho dinheiro, tenho liberdade. ”
O gravador captou cada palavra. Ele atirou-se a mim com uma faca. Desviei-me.
Mas o Tomás, um antigo colega que estava escondido, saltou à minha frente. A faca cravou-se no ombro dele. A polícia chegou. O Diogo foi preso.
No julgamento, ele e a Catarina atacaram-se mutuamente. A sentença: 20 anos para ele, 7 para ela. Usei o dinheiro da venda da quinta para ajudar a mãe dele, que ficou acamada. Não por eles, por mim.
Para não carregar rancor. Fiz voluntariado em Trás-os-Montes. Reencontrei o sentido da vida. O Tomás esperou por mim.
Agora estamos juntos, numa vida simples. Sem juras falsas, apenas sinceridade. Numa noite fria, bebo chá de camomila na varanda. Ele lê um livro ao meu lado.
A tempestade ficou do outro lado da porta. Aprendi que a verdadeira felicidade não está em quintas luxuosas, mas na paz de espírito. E numa chávena de chá quente, com quem se ama de coração sincero.


