Voltei do trabalho no meio da tarde, decidida. A minha irmã folgada ia arrumar as malas e sair do meu quintal naquele exato dia, por bem ou por mal. Fui caminhando a passos firmes até a casa dos fundos. Empurrei a porta do quarto dela sem bater.

Lá dentro, na cama, estava a minha irmã e em cima dela estava o meu noivo. Os dois deram um pulo, pálidos, puxando o lençol. Eu tinha duas opções: chorar ou destruir a vida dos dois. Escolhi a segunda.
Mas deixa eu voltar um pouco. Sou a Mariana, 32 anos, corretora de imóveis. A minha família só se lembra de mim quando precisa de alguma coisa. A minha irmã mais velha, Paula, sempre foi a queridinha.
Eu cresci a trabalhar desde os 16 anos, saí de casa aos 21, formei-me em Direito mas nunca quis seguir a área. Tornei-me corretora e construí o meu património sozinha. Paula, formada em Turismo, nunca trabalhou: viveu às custas de pais e namorados. Há três anos comprei um terreno num leilão.
Uma casa principal grande na frente e dois sobrados menores nos fundos. Eu e o meu noivo, Caio, um arquiteto de 33 anos, morávamos na casa da frente. Os dois sobrados estavam alugados por 2. 000 reais cada – um pagava o meu financiamento, o outro era renda extra.
Tudo corria bem até a princesa Paula ser expulsa de casa pelo namorado rico que a descobriu a trair. Sem onde cair morta, a minha mãe ligou:
– Mariana, aquela casa que vagou ainda está para alugar? A Paula vai ficar aí. – Tudo bem, mãe.
Vou preparar o contrato. Quantos meses ela pretende ficar? Silêncio. Depois a voz de ditadora:
– Contrato?
Tens coragem de cobrar aluguel à tua irmã? Ela não tem onde ficar! – E por que não vai para a vossa casa? – Não há espaço, Mariana.
Transformei o quarto delas em arrumos. E tu tens uma casa sobrando. – Mãe, preciso do dinheiro do aluguel para pagar o financiamento. – Não sejas egoísta.
Não vais sentir falta. É temporário. Desligou-me na cara. Eu tinha clientes nesse sábado de manhã, guardei o assunto.
Péssima escolha. No final da tarde cheguei a casa e deparei-me com luzes acesas nos fundos, caixas e plástico bolha espalhados pelo quintal. A porta estava aberta. Lá dentro, geladeira de inox, cooktop, air fryer, máquina de lavar, sofá novo, TV de 40 polegadas.
Tudo novinho. O meu pai, a minha mãe, a Paula e o Caio – o meu noivo – a montar tudo. – Que raio se passa aqui? Como entraram sem a minha permissão?
Caio desligou a furadeira, sonso:
– Disseram que já tinham falado contigo, que a Paula ia morar aqui… deixei-os entrar. A minha mãe atalhou:
– Para de escândalo, Mariana. A Paula vai ficar temporariamente. – Temporariamente?
E por que é que há tanto material novo? O meu pai, a suar a empurrar a lavadora:
– Ah, ela precisa de conforto. O Bruno não a deixou levar nada. Compramos tudo nas Casas Bahia, fizemos um crediário.
Eu ri, incrédula. A aposentadoria dos meus pais mal dava para eles, mas para a Paula não faltava dinheiro. Respirei fundo:
– Tá bem. Paula, podes ficar dois meses.
Arranja um emprego e aluga outro sítio. Paula gargalhou:
– Dois meses? Estou fragilizada, vou precisar de mais tempo. E a mãe disse que posso ficar o tempo que precisar.
Esta casa é da família, posso ficar para sempre. – Esta casa é minha, Paula. A minha mãe atravessou a sala apontando o dedo:
– Deixa de ser mesquinha. A gente criou-te, demos-te lar e comida.
Tens duas casas a sobrar. Tens obrigação de dividir. Olhei para o Caio. Ele baixou os olhos:
– Mari… se fosse a minha irmã, eu ajudava.
A mudança já está aqui. Depois vemos com calma. Estava exausta e em minoria. Cedi, mas impus condições: a Paula tinha que varrer o quintal, lavar as áreas comuns, receber encomendas.
A minha mãe bufou, mas aceitou. Na primeira semana, a Paula fez festa todas as noites. Churrasco, pagode, gente que eu nunca vi. Cheguei a casa na quinta-feira às dez da noite, com doze pessoas no quintal.
Fui falar com ela:
– Paula, já chega. São dez da noite, a fumaça vai para a casa do seu Joaquim. – Nossa, Mari, que chata. É só um churrasquinho para esquecer os problemas.
– Abaixa o volume e apaga a churrasqueira. Virei costas, entrei em casa. O Caio trancou a porta:
– Tens que ser mais dura, Mari. Isto não se aguenta.
Liguei para a minha mãe:
– Mãe, a Paula está a fazer festa todos os dias. Não consigo descansar. – Mariana, exagerada. Ela está com o coração partido, precisa de se distrair.
Tem paciência. Desligou. Na segunda-feira de manhã, o seu Joaquim, o inquilino perfeito, bateu à porta com lágrimas nos olhos:
– Dona Mariana, adoro morar aqui, mas já não tenho idade para aguentar festas e barulho. Vou desocupar a casa na próxima semana.
Pago a multa. – Não paga multa nenhuma, seu Joaquim. A culpa é da minha irmã. Ele agradeceu e foi-se.
Fechei a porta com um nó na garganta. A folga da Paula acabara de me custar o meu único inquilino. De repente, os fundos estavam vazios e eu perdia dois mil reais por mês. Liguei de novo para a minha mãe, a tremer de raiva:
– Mãe, a palhaçada já foi longe demais.
O seu Joaquim vai-se embora por causa das festas da Paula. Perdi a minha renda. A voz da minha mãe, calma e especulativa:
– Ah, a outra casa vagou? Que interessante.
– Interessante? Preciso que tirem a Paula daqui já! – Vou conversar com ela e com o teu pai. Vamos dar um jeito.
Desligou. Respirei aliviada, pensei que finalmente a ficha tinha caído. Mas nos dias seguintes o barulho parou, sim. Em compensação, os meus pais começaram a aparecer todos os dias.
E o Caio ficou estranho: escondia o ecrã do computador, minimizava janelas quando eu entrava no escritório. Na sexta-feira, a minha mãe mandou mensagem: “Vem jantar hoje à noite na casa da Paula. Temos uma coisa importante para comunicar. ”
Fui com o Caio, esperançosa.
Sentámo-nos à mesa. Pizza, refrigerante, sorrisos. – Então? – perguntei.
– Quando é que a Paula se vai mudar? A minha mãe e o meu pai trocaram um olhar cúmplice. Paula abriu um sorriso vitorioso. – A Paula não vai a lado nenhum – disse a minha mãe.
– Nós é que vamos mudar-nos para cá. Pusemos a nossa casa para alugar, e com esse dinheiro pagamos as nossas contas. Vamos morar na casa que o seu Joaquim desocupou. – O quê?
– levantei-me, a cadeira a raspar no chão. – Vocês enlouqueceram? Preciso daquele aluguel para pagar o meu financiamento. – Não vamos morar de graça, filha – o meu pai limpou a boca.
– Vamos reformar as duas casas. Pegamos um empréstimo, fazemos obras completas, trocamos pisos, banheiros, móveis planeados. Em troca, moramos cá sem pagar renda. – E como vão pagar o empréstimo?
– perguntei, incrédula. – Com o dinheiro do aluguel da nossa casa – respondeu a minha mãe, como se fosse óbvio. – Mas eu preciso do dinheiro vivo todos os meses! Por que não passam o aluguel deles diretamente para mim?
– Nós vamos viver nesta espelunca a pagar dois mil por mês? Nunca! Devias agradecer pela reforma. O sangue fugiu-me do rosto.
Olhei para o Caio. Ele estava a olhar para o prato. – Explica as vantagens para ela, Caio – disse o meu pai. O silêncio foi pesado.
O Caio limpou a garganta:
– Mari… tenta ouvi-los. Como arquiteto, garanto que é um ótimo negócio. Os teus pais contrataram-me para fazer a planta e executar a obra. Vai valorizar muito as casas.
Contrataram. Ele projetou a invasão do meu próprio terreno pelas minhas costas. – Eles compraram-te, Caio? – a voz embargada de ódio.
– Mari, não fales assim. É trabalho. – Não vai haver obra nenhuma – gritei, batendo na mesa. – Eu não autorizo nada.
Virei costas e marchei para a casa da frente. O Caio veio atrás:
– És completamente surtada! Os teus pais vão investir milhares no teu imóvel e tu dás chilique? – Apunhalaste-me pelas costas, Caio.
Discutimos duas horas. Ele foi dormir no quarto de hóspedes. A semana seguinte foi um inferno de silêncio. Até que, no sábado, voltei do trabalho no meio da tarde e tomei a decisão: a Paula ia sair naquele dia.
Por bem ou por mal. A casa estava silenciosa – o Caio tinha dito que ia passar o dia no escritório. Fui a passos firmes até a casa dos fundos. A porta da sala estava encostada.
Não bati. Empurrei a porta. Sala vazia, TV ligada. Caminhei pelo corredor até o quarto.
A porta entreaberta. Abri a boca para gritar com ela, mas a voz morreu na garganta. Lá dentro, na cama king size que os meus pais compraram, estava a minha irmã Paula e em cima dela estava o Caio. Meti o pé na porta com tanta força que a maçaneta fez um buraco no gesso.
Os dois deram um pulo, pálidos. – Mas que pouca vergonha é esta na minha casa? – gritei. – Quero os dois fora daqui agora!
O Caio tentou balbuciar, mas a Paula levantou a mão, debochada:
– Abaixa o tom, Mariana. Não vou a lado nenhum. E o Caio também não. Vai morar aqui comigo.
Esta casa é da família, não tens direito de expulsar ninguém. Peguei no telemóvel a tremer e liguei para a minha mãe em viva voz:
– Mãe, acabei de apanhar o Caio e a Paula na cama! Quero os dois fora daqui hoje. Suspiro impaciente do outro lado:
– Mariana, para de escândalo.
A tua irmã estava carente, o Caio deu atenção. Essas coisas acontecem. Já comprámos todo o material de construção. A reforma vai começar na segunda-feira, fim da história.
Desligou. Olhei para o telemóvel mudo. A minha própria mãe tinha abençoado a traição. Guardei o telemóvel, saí do quarto e atravessei o quintal a passos duros.
Entrei na casa da frente, abri a janela do quarto que dava para o quintal. Comecei a arremessar tudo o que era do Caio: camisas, calças, sapatos, cuecas, a prancheta de arquiteto, a trena laser, os esquadros. Choveram roupas e material pelo quintal. – Estás louca, Mariana?
– gritava ele, a catar as réguas do cimento. – Não vais morar com ela? Então apanha as tuas tralhas do chão. Se pisares na casa da frente de novo, chamo a polícia.
Bati a janela, tranquei todas as portas, fechei cortinas. Enquanto os via a recolher as coisas, sentei-me na mesa da cozinha, a tremer. A raiva passou, o racional falou mais alto. Se chamasse a polícia agora, era inútil – a Paula estava com a minha autorização inicial.
Um processo de reintegração de posse arrastava-se por anos. Não. Eu tinha uma ideia melhor. Abri o WhatsApp e mandei a mesma mensagem para a minha mãe, o meu pai, a Paula e o Caio:
“Como legítima proprietária do imóvel, não autorizo nenhuma obra ou reforma nas casas dos fundos.
Não concordo com os materiais comprados e não autorizo a entrada de pedreiros na minha propriedade. ”
Esperei que todos lessem. Tirei prints. No dia seguinte, ouvi os meus pais a conversar nos fundos:
– Ah, foi só um chiliquinho dela – dizia a minha mãe.
– Daqui a pouco acostuma-se. Deixei cair a cortina. Eles achavam que as mensagens eram birra. Ótimo.
Na segunda-feira de manhã, a obra começou. Caçamba de entulho, pedreiros, cimento. Eu saí de casa, passei por eles, acenei de leve e fui trabalhar. Durante trinta dias, fingi demência total.
Entrava e saía, via os pisos arrancados, a furadeira, e ignorava. Eles foram ficando cada vez mais donos de si, a torrar dinheiro em materiais de luxo, certos de que tinham ganho. Quando a obra acabou, a minha mãe veio mostrar-me:
– Mariana, vem ver como ficou. Acompanhei-a.
Tinham feito mesmo uma reforma de alto luxo: porcelanato importado, mármore, nichos iluminados, portas maciças. As casas tinham virado imóveis de revista. – Ficou incrível, mãe – disse com a voz mais doce que consegui. – Peço desculpa pela minha reação.
Vocês tinham razão. A minha mãe quase deu um gritinho de alegria. Paula revirou os olhos com ar de “eu avisei”. – Que bom que entendeste, Mariana.
A família tem que ficar unida. – Entendi tanto, mãe, que decidi redimir-me. – Tirei um papel da bolsa. – Recebi um prémio na imobiliária: uma semana de férias num Airbnb de luxo no litoral.
Três quartos, pé na areia. Quero dar esse prémio a vocês quatro, como agradecimento pela reforma. Na verdade, não havia prémio nenhum. Tirei do meu bolso o dinheiro para aquela semana.
O melhor investimento da minha vida. Todos ficaram maravilhados. No domingo de manhã, partiram para a praia, eufóricos, com malas e cadeiras. Acenei do portão.
Assim que o carro dobrou a esquina, peguei no telemóvel e chamei o chaveiro. Troquei as fechaduras dos dois sobrados e do portão. Durante aquela semana, usando o banco de dados da imobiliária, já tinha selecionado inquilinos para as duas casas. Na quarta-feira, assinei contratos com dois casais.
O aluguel saltou para 3. 500 reais cada – graças à reforma que eles pagaram. Na quinta, os caminhões de mudança chegaram. No domingo ao fim da tarde, a família feliz voltou da praia.
O carro do meu pai encostou. Desceram todos queimados de sol. O meu pai foi até o portão, enfiou a chave. A chave não girou.
Forçou, bateu na fechadura, resmungou. Nesse momento, a porta da casa que ele tinha reformado abriu-se. Um homem de chinelos, com uma caneca de café, saiu:
– Boa tarde, posso ajudar? A minha mãe arregalou os olhos.
– O que o senhor está a fazer dentro da minha casa? Abra este portão! – Sua casa? Eu aluguei este imóvel na quarta-feira.
Tenho contrato assinado, o mês está pago. Foi aí que saí de casa. Caminhei até o portão, sorrindo:
– Oi, como foi a praia? A minha mãe grudou as mãos na grade:
– Mariana, que brincadeira é esta?
Por que a chave não entra? – Mãe, a fechadura é nova. Este é o Amauri, o novo inquilino. Tem outro casal na casa do lado.
A reforma valorizou muito as casas, aluguei as duas por um preço ótimo. O meu pai recuou, pálido:
– Gastámos mais de 60 mil reais nesta obra para morarmos cá! Estás louca? – Pai, o terreno é meu.
Estas casas são meus imóveis de renda. Vocês é que acharam normal invadir a propriedade dos outros para morar de graça para sempre. O Caio meteu-se:
– Nós embargamos isto! Temos todos os recibos!
– A sério, Caio? Benfeitoria feita de má-fé não dá direito a indenização. Lembram-se das mensagens que mandei? Avisando que não autorizava a obra?
Aquelas que a minha mãe chamou de chilique? São provas. Nenhum juiz vos vai devolver um centavo. Ele abriu a boca, mas não disse nada.
Sabia que estava perdido. A Paula histérica:
– E as minhas coisas? A geladeira, o sofá, a TV? Roubaste!
– Credo, Paula, ofender-me assim. Mandei um caminhão de mudança e devolvi tudo para a casa dos pais. Está tudo na sala deles, enfiado. Boa sorte para limpar até sexta-feira, quando o vosso inquilino vai entrar.
A minha mãe e a Paula começaram a chutar o portão:
– Abre esta droga! A casa é da nossa família! O Amauri tirou o telemóvel e discou 190. Em menos de dez minutos chegou a polícia.
A minha mãe tentou a última cartada, a chorar:
– Seu guarda, a minha filha não nos deixa entrar na nossa casa! O polícia olhou para mim. Mostrei a matrícula do imóvel no telemóvel:
– Boa tarde. O terreno é meu.
Já lhes disse que não podem morar aqui, e estão a tentar invadir. O polícia suspirou:
– Senhora, a casa está no nome dela. Ou vai embora agora, ou levo todos detidos por tentativa de invasão de domicílio. A minha mãe perdeu a cabeça:
– És uma cobra, Mariana!
Vais arder no inferno! – Invejosa, desgraçaste a minha vida! – gritou a Paula. O polícia cansou-se:
– Acabou o show.
Ou vão embora ou algemo-vos. Assustados, enfiaram-se no carro e arrancaram com os pneus a cantar. O karma não decepciona. Como já tinham posto a casa deles para alugar, precisaram cancelar o contrato às pressas.
Pagaram uma multa altíssima e tiveram de fazer outro empréstimo. Agora vivem os três na casinha apertada – a mesma que a minha mãe dizia não ter espaço. Couberam. A casa deles está hipotecada para pagar os 60 mil da reforma.
O banco já ameaça execução. Se for a leilão, eu estarei na primeira fila para dar o lance. Quanto ao Caio, fiz queixa no Conselho de Arquitetura por ter executado uma obra sem a autorização da proprietária. Levou suspensão e multa.
A reputação dele no mercado derreteu. O romance com a minha irmã não durou – acabaram a culpar-se um ao outro, a odiarem-se. Algumas semanas depois, ele bateu-me ao portão:
– Mari, foste a mulher da minha vida. Tive um péssimo julgamento, arrependo-me.
Podíamos ser tão bons juntos. Olhei-o de cima a baixo:
– Agora reforma a casa da tua mãe para ver se consegues morar lá de graça para sempre. Ah, espera, a tua licença está suspensa. Que azar.
Fechei a porta na cara dele. A Paula, pela primeira vez, foi obrigada a trabalhar. Hoje está numa agência de viagens, a entregar panfletos na rua, a rachar ao sol. Eu continuo na minha casa.
Os meus inquilinos pagam-me 7. 000 reais por mês, religiosamente. O meu terreno valorizou. A minha paz voltou.
Disseram que eu era a ovelha negra da família. Talvez seja. Mas pelo menos fui uma ovelha que se deu muito bem na vida.


