Quando entrei em casa encharcada de chuva e com o telemóvel morto, nunca imaginei que ia encontrar o fim do meu mundo num tablet coberto de pó. Era do Rafael, guardado numa gaveta. Liguei-o para…

Quando entrei em casa encharcada de chuva e com o telemóvel morto, nunca imaginei que ia encontrar o fim do meu mundo num tablet coberto de pó. Era do Rafael, guardado numa gaveta. Liguei-o para...

Quando entrei em casa encharcada de chuva e com o telemóvel morto, nunca imaginei que ia encontrar o fim do meu mundo num tablet coberto de pó. O Rafael tinha um tablet antigo guardado numa gaveta do escritório. Liguei-o para aceder ao meu e-mail de trabalho. O aparelho começou a carregar mensagens acumuladas.

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Quando o processo terminou, o nome da Dani apareceu como conversa mais recente. Eu abri. As primeiras mensagens eram inocentes. Ela a perguntar pela casa nova, ele a gabar-se de a ter comprado sozinho.

Depois vieram os elogios, os emojis, as risadinhas. E depois o resto. Fotos. Nudes.

Piadas sobre o meu peso. Rafael a dizer que eu tinha engordado, que já não sentia atração por mim. Ela a concordar. Juntos, criaram um apelido para mim: Orca Catarina.

Mandavam figurinhas de baleia a rir. Li tudo. Cada palavra. Cada troca.

Eles debochavam de mim enquanto eu planeava a festa surpresa de aniversário dele. A Daniele, a minha prima, estava grávida. O Rafael sabia. A família dele sabia.

A minha tia Denise sabia e ficou feliz. O plano era simples: no dia da festa, ele ia aceitar o carro que eu lhe tinha comprado, e depois, na frente de todos, ia terminar comigo e anunciar a gravidez da Daniele. Ficavam com a casa, com o carro, com a festa grátis e com a minha dignidade estilhaçada. Sentei-me no chão do escritório, encharcada, a tremer.

Mas depois parei. Respirei fundo. Lembrei-me de quem eu era. Sou paralegal.

Passo o dia a ler contratos. Sei o que uma procuração com plenos poderes pode fazer. E aquele idiota tinha assinado uma sem ler. Devagarinho, fechei o tablet, limpei o pó e voltei a colocá-lo na gaveta exatamente como estava.

Depois fui comprar um telemóvel novo. O meu tinha morrido na enchente. O trabalho urgente que esperasse. Eu tinha menos de uma semana para transformar a melhor festa de aniversário alguma vez planeada na pior noite da vida de alguém.

E olhem, dediquei-me a isso. Primeiro, fui ao Detran com a procuração e transferi o Polo para o meu nome. O carro que eu comprei com o meu dinheiro, para ele, agora era meu. Continuava na garagem da minha mãe, lindo, à espera.

Depois, peguei nos documentos da casa que comprámos juntos e fiz a transferência total para o meu nome. A parte dele – os 50% de entrada que ele deu com o dinheiro do processo – passou a ser minha. Legal, registado, irreversível. Ele assinou uma procuração de plenos poderes sem ler uma única linha.

O idiota estava tão ocupado a sonhar com o carro e a dormir com a minha prima que nunca pensou no que aquilo significava. A seguir, aluguei um Polo igual ao que eu tinha comprado. Usei os dados do cartão dele, claro. Apenas um dia de aluguer.

Cada dia extra custava duzentos reais. Agendei a recolha para o sábado de manhã. Depois tratei da festa. Mudei o cardápio: pão de forma, mortadela e guaraná Dolly.

Decoração verde. Música de jazz. Ele era corintiano roxo, odiava verde, odiava jazz, odiava Dolly. Ia odiar tudo.

Na manhã do sábado, o Rafael saiu de casa com a desculpa de ajudar a Daniele a montar uns móveis. Eu sabia que iam para um motel. Assim que ele virou a esquina, entrei em ação. Fui à locadora, busquei o Polo alugado, passei no mercado, voltei para casa e decorei tudo de verde.

Fiz sandes de mortadela em triângulos, espalhei garrafas de Dolly pelas mesas. Arrumei as coisas do Rafael em duas malas e coloquei-as no porta-malas do Polo alugado. Estacionei o carro na rua ao lado. Ao meio-dia, os convidados começaram a chegar.

A minha família, os amigos dele, a família dele. Todos estranharam a decoração, a comida, a música. Mas ninguém disse nada. Era uma festa surpresa, talvez o Rafael tivesse virado palmeirense.

A Daniele mandou mensagem: Estou a levá-lo. A porta abriu. O Rafael entrou, sorriu, olhou à volta. O sorriso foi-se desfazendo devagar.

Pão com mortadela, Dolly, jazz, decoração verde. Ele olhou para mim com uma cara de nojo. — Que festa é esta, Catarina? — Amor, gastei tudo no teu presente.

Foi o que deu para fazer na comida. Desculpa, mas o presente compensa, prometo. Ele respirou fundo. Olhou para a Daniele.

Ela fez-lhe um sinal: relaxa, o carro é o que importa. Ele comeu um pão com mortadela de má vontade, bebeu Dolly a fazer careta. Aturou duas horas daquilo. Duas horas de jazz, de verde, de refrigerante barato.

Dois horas de um corintiano a ouvir piadas sobre ser palmeirense. Dois horas de sofrimento silencioso enquanto a Daniele e ele cochichavam pelos cantos. Depois anunciei:

— Gente, preparei uma surpresa muito especial para o Rafael. Quero que todos vão para a frente de casa.

Já volto. Saí, fui à rua ao lado, entrei no Polo alugado e colei uma fita vermelha no lado. Dirigi até à frente de casa. Quando o Rafael viu o carro com a fita, os olhos brilharam.

Ele abriu a boca, parecia uma criança no Natal. Desci, peguei na chave e atirei-lha. — Feliz aniversário, meu amor. O documento está no porta-luvas.

Ele agarrou a chave no ar, levantou-a, mostrou-a a toda a gente. Aplausos. A mãe dele chorou. O pai bateu palmas.

Os amigos gritaram. E então ele fez exatamente o que eu sabia que ia fazer. Correu para a Daniele e abraçou-a na frente de todos. Silêncio.

Três segundos de silêncio absoluto enquanto todos olhavam para o noivo abraçado à minha prima sem perceber nada. Depois ele pediu atenção, pegou na mão dela e anunciou:

— Aproveitando que estamos todos reunidos, tenho um anúncio a fazer. Eu e a Daniele apaixonámo-nos e ela está grávida. A família dele começou a comemorar.

A mãe abraçou a Daniele, o pai apertou a mão ao filho. A minha tia Denise aplaudiu. Todos já sabiam. Ninguém teve a decência de me avisar.

Olhei para a minha mãe. Estava branca, como se lhe tivessem puxado o sangue com um canudo. O meu pai tinha a mão no rosto, a tentar processar o que acabara de ouvir. O Rafael continuou:

— Aliás, esta festa está um porre.

Vamos pedir uma pizza e comemorar a gravidez, que pelo menos é uma notícia boa de verdade. E o carro veio em boa hora, não é? Perfeito para levar o bebé ao médico. Ele riu.

Depois virou-se para mim, com aquele ar de quem já ganhou:

— Catarina, agradeço tudo o que fizeste por mim. És uma boa pessoa, mas agora acho melhor ires embora. Depois combinamos um dia para pegares as tuas coisas. Ia mandar-me embora da minha própria casa.

Olhei para ele com calma. — Queres que vá embora? Mas ir embora de onde, Rafael? — Da minha casa.

Depois resolvemos de forma civilizada. Eu pago a tua parte parcelado e assumo o financiamento. — Rafael, esta casa é minha. — Não digas disparates, Catarina.

Eu paguei metade à vista. — Sim, mas está toda no meu nome. Tirei o papel da bolsa. Esta casa é legalmente minha.

Só minha. — Como assim? — ele deu uma risada nervosa. — Esse papel nem deve ser verdade.

Eu dei tudo o que tinha para comprar esta casa. — Deu. E depois assinaste uma procuração com plenos poderes sem ler. Lembras-te?

O rosto dele mudou. Vi o momento exato em que a ficha caiu. Foi lindo. — Tu…

não podes fazer isso. — Posso e fiz. Tudo registado. Cartório, documento, carimbo, legal, legítimo e irreversível.

Vantagem de ser paralegal, amor. Ele ficou branco, depois vermelho, depois de uma cor que não sei descrever. A Daniele entrou na conversa:

— Não podes fazer isso, sua baranga. Nós íamos morar aqui.

— Qual a parte de esta casa é minha não percebeste? Ela virou-se para ele devagar, como num filme de terror. — Faz alguma coisa, Rafael. Tu prometeste que íamos morar aqui.

A mãe dele tentou acalmá-la. Mas a Daniele não queria calma. Pegou no copo de Dolly e atirou-lho à cara. O refrigerante escorreu pelo rosto dele enquanto ele ficava parado, a pingar.

— Seu burro idiota! Como é que assinas uma procuração sem ler? Perdeste a casa que compraste sozinho? — Sozinho?

— eu intervim. — A casa foi comprada a meias. Ele deu metade da entrada, mas era eu quem pagava as contas e o financiamento. A Daniele arregalou os olhos.

— Tu mentiste-me? Disseste que a casa era só tua. Ele olhou para o chão. — E ganhas dois salários mínimos?

— ela continuou. — Como é que pensavas criar uma família com dois salários mínimos? Sabes quanto custa uma fralda hoje? Sabes quanto gasto por mês no salão?

Percebi tudo naquele momento. Ela não estava zangada porque ele mentiu. Estava zangada porque ele era pobre. Os amigos dele foram saindo de fininho, um a um.

Ninguém queria fazer parte daquele circo. A mãe dele e a minha tia pegaram na Daniele e levaram-na embora. A tia Denise ainda se virou para mim:

— Sempre soube que tinhas inveja da minha filha. Ela é bonita, tu és uma escrota.

Isto tudo é inveja. — Eu, inveja, tia? A senhora devia ter ensinado a sua filha a conquistar as próprias coisas, em vez de tentar conquistar alguém para as ter. Golpe da barriga em pleno século XXI de um CLT que ganha dois salários mínimos.

Tem de ser muito burra. Ela ficou sem palavras. Foi embora. O Rafael olhou para mim com raiva.

— Sua mal amada balofa, vais ver só. Vou processar-te. — Podes processar. Fico à espera.

Se quiseres, falo com o meu chefe e vejo se consigo um desconto para entrardes com o processo lá. Ele bufou, entrou no carro – o Polo alugado – e foi embora. Melado de Dolly, sem casa, sem noiva, sem dignidade. E sem saber que o carro nem era dele.

Fiquei à porta, a comer um pão com mortadela, a vê-lo desaparecer na rua. Depois fechei a porta, encostei as costas e deslizei até ao chão. A minha mãe sentou-se ao meu lado e abraçou-me. O meu pai ficou de pé, com a mão no meu ombro.

Chorei. Mas não era tristeza. Era alívio. Dois dias depois, ele ligou.

— O carro é alugado? — Sim, é alugado. A diária são duzentos reais. O teu cartão de crédito está cadastrado na locadora.

Boa sorte. Ele tentou mudar de tom. — Catarina, olha, eu errei. Mas a culpa não foi só minha.

Engordaste, embarangaste, eu perdi o interesse. — Ainda bem que gostas de magrinhas, Rafael. Agora é tempo de vacas magras para ti. Desliguei.

Nunca mais me processou. Nunca mais disse nada. Passaram meses. Consegui vender a casa.

Comprei um apartamento no mesmo prédio dos meus pais. Comecei a namorar um advogado do escritório, o Lucas. Ele lê cada linha de cada documento antes de assinar. É diferente de tudo o que conheci.

A Daniele engordou quarenta e cinco quilos. O Rafael desapareceu. O bebé nasceu, ela ainda mora com a tia Denise. Eu?

Estou bem. Tenho o meu apartamento, o meu carro, o meu namorado que lê contratos, e os meus pais no andar de cima. Não preciso de mais nada.