O meu cartão de crédito foi recusado e o hospital expulsou-me sem piedade. A enfermeira cravou os olhos na factura, não em mim. «A sua cama é para outro doente. »
O meu marido David fez uma careta de preocupação.

Estava impecável, camisa engomada, cabelo cheio de gel. Parecia ir a uma festa. «Vou procurar um empréstimo», disse, e beijou-me a testa sem me olhar nos olhos. Nunca mais voltou.
Fiquei sozinha na maca, no corredor frio, sentindo a dor no peito a crescer. O ar condicionado cortava-me a pele. Comecei a aceitar a morte. Foi então que um homem de fato caro entrou pela porta principal, seguido por quatro seguranças.
Parou junto à minha maca, ajoelhou-se no chão sujo e beijou-me a mão. Os olhos dele estavam vermelhos. «Perdoe-me, senhorita. Este servo, Harrison, lamenta encontrá-la tão tarde.
Acabei de comprar este hospital. Vai receber o melhor tratamento possível. »
Apresentou-me uma pasta. Dentro, um teste de ADN datado de três anos.
O nome do requerente era David Chen. O meu marido sabia quem eu era. A minha família era a fortuna Sterling — o hospital e tudo o que o rodeava era meu por direito. David esperou que o meu avô morresse.
Queria que eu morresse primeiro para herdar a indemnização. Harrison mostrou-me as imagens do parque de estacionamento: David a entrar num carro vermelho, a beijar outra mulher, a fugir. Não senti mais o corpo. Senti fogo.
Duas semanas depois, estava curada, transformada. O cabelo brilhava, a pele radiante. Olhei-me ao espelho e não reconheci a mulher que chorava na maca. Chamei-me Regina.
Com a fortuna, comprei o clube onde David festejava a minha morte. Armei uma armadilha: convidei-o para um investimento de dez milhões. Assinou um contrato diabólico — se falhasse, perderia tudo. E falhou.
O projecto foi suspenso. David ficou desesperado. Recebeu uma mensagem de um número anónimo: «O teu tónico de ervas estava delicioso. Guardei o frasco.
»
No baile de gala, vestida de ouro, subi ao palco. Chamei-o. Mostrei a gravação da conversa no clube onde ele ria da minha morte. A multidão ouviu-o confessar: «Ela tinha os rins destruídos.
Desliguei o telefone para não pagar as taxas do corpo. »
David sacou uma navalha. Harrison imobilizou-o. Ajoelhei-me, limpei o meu rosto com uma toalhita.
O meu marido viu o sinal debaixo do olho. Vi o pânico nos olhos dele. «Bem-vindo ao inferno que criaste, esposo. »
A polícia entrou com o frasco de veneno.
Levaram-no algemado. De manhã, fui ao cemitério. Deitei lírios brancos na campa dos meus pais biológicos. Sussurrei uma despedida à Valerie que morreu naquele corredor.
Harrison chamou-me. «A reunião de accionistas espera, presidente. »
Endireitei os ombros. «Não me chame Valerie.
Chame-me Regina. A Valerie já descansa em paz. »
Caminhei para a limusina. O mundo novo aguardava.
Desta vez, eu controlava.


