Vi-a no outro lado da piscina, encostada à mesa dos presentes, e soube imediatamente que não pertencia ali. Enquanto todas as outras mulheres usavam tons pastel, ela destacava-se com um vestido vermelho que se colava a cada curva do corpo. O cabelo escuro caía em ondas perfeitas. Movia-se com a confiança de quem sabe que todos os olhos estão nela.

Incluindo os do meu marido. Vi o rosto de Carlos mudar no momento em que a viu. Aquele sorriso fácil vacilou durante um segundo antes de se transformar em qualquer coisa que nunca lhe tinha visto. Era o olhar que um homem dedica a uma mulher que deseja.
O estômago revirou-se-me. Decidi ser a anfitriã simpática. — Olá, não creio que nos conheçamos. Veio com alguém?
Ela virou-se e sorriu, um sorriso deslumbrante e falso. — Deves ser a Jimena. Sou a Raquel. Carlos e eu trabalhamos juntos.
Espero que não se importe que me tenha convidado. Alguma coisa na maneira como disse o nome dele fez-me arrepiar a pele, mas ignorei. Hormonas da gravidez, disse comigo. — Claro que não.
Qualquer colega do Carlos é bem-vinda. — Oh, somos muito próximos — disse ela, com os olhos a brilhar com qualquer coisa que não consegui identificar. — Sou a assistente especial dele. Ajudo-o com todo o tipo de assuntos pessoais.
A maneira como enfatizou a palavra «pessoais» fez soar todos os alarmes na minha cabeça. Mas antes que pudesse processar, a Maya apareceu ao meu lado. — Jimena, está na hora de abrir os presentes. Reparei na forma como os olhos da Maya se apertaram ao ver a Raquel.
A Maya sempre foi protectora comigo. Na hora seguinte, abri presente atrás de presente, mas não conseguia afastar a sensação de que a Raquel sabia exactamente onde ficava tudo em minha casa. Quando alguém perguntou pela casa de banho, foram as indicações dela que vieram primeiro. O momento que me gelou o sangue foi quando abri o presente dela.
Dentro de uma caixa elegante estava o saco de bebé mais bonito que já vi. Couro rosa pálido, ferragens douradas. O cartão dizia apenas: «Para o futuro. »
A inspiração brusca da Maya ao meu lado confirmou que ela tinha reparado no mesmo que eu.
Aquele não era o tipo de presente que uma colega de trabalho oferece. Era íntimo. Demasiado pessoal. Demasiado caro.
Ao longo da tarde, observei-os. Não interagiam muito, mas eu captava os olhares significativos, a forma como ela ía das piadas dele de forma exagerada, a maneira como ele lhe tocava subtilmente nas costas. O coração começou a bater com uma certeza terrível. Quando a festa se acalmou, fui para dentro descansar.
O bebé tinha estado invulgarmente sossegado, o que me deixava nervosa. Foi quando ouvi a voz do Carlos no escritório. A porta estava entreaberta. Falava ao telemóvel num tom baixo e urgente.
— Raquel, já falámos sobre isto. Nem aqui, nem hoje. Há demasiada gente. O coração parou.
Encostei-me à parede. — Sei que é difícil, mas temos de ter paciência mais um bocado. Depois de o bebé nascer, tratamos de tudo. Prometo que isto não dura muito mais.
As palavras atingiram-me como uma chicotada. Afastei-me da porta com as mãos na barriga, como se pudesse proteger a minha filha daquela traição. Quanto tempo? Como é que eu tinha sido tão cega?
Entrei na casa de banho dos convidados, mas antes que as lágrimas caíssem, a porta abriu-se. A Raquel entrou e fechou-a atrás de si. — Desculpa, já estava a sair. Ela não se mexeu.
Encostou-se à porta, bloqueando a saída. O sorriso doce desapareceu completamente. — Na verdade, Jimena, acho que temos de conversar. A mulher diante de mim já não era a convidada encantadora.
Era fria, calculista e olhava para mim como se eu fosse um obstáculo. — Sei que ouviste o Carlos. Coitadinha, pareces ter visto um fantasma. — Não sei do que estás a falar.
Ela riu-se, um som como vidro a partir-se. — Achaste mesmo que o Carlos ia ficar contigo para sempre? Olha para ti, Jimena. Estás enorme, cansada o tempo todo.
E sejamos honestos, nunca estiveste à altura dele. — O Carlos ama-me. — O Carlos ama o que tu representavas. Estabilidade, respeitabilidade.
Mas os homens como ele precisam de paixão, emoção. — Estás a dormir com o meu marido? O sorriso dela alargou-se. — Há mais de um ano.
Muito antes de engravidares. Na verdade, eu disse-lhe que também estava grávida, para acelerar as coisas. Mas sinceramente — riu-se de novo —, não suporto crianças. Nem sequer estou grávida.
Mas ele não precisa de saber disso ainda. — Estás a mentir-lhe? — Estou a geri-lo. Ele acha que vai recomeçar a vida comigo e com o nosso bebé imaginário depois de te deixar a ti e ao teu pirralho chorão.
O que ele vai ter é uma mulher que gasta o dinheiro dele, o faz bonito ao braço e nunca o chateia com a realidade da vida familiar. Tentei passar por ela, mas ela agarrou-me no braço. — Ainda não terminámos. — Larga-me.
As pessoas vão dar pela minha falta. — Estão todos demasiado ocupados a beber o champanhe caro do Carlos. Ninguém sente a falta da grávida aborrecida. — O que é que queres de mim?
— Quero que entendas a tua situação. O teu casamento acabou. O Carlos só está à espera que dês à luz para oficializar. Não quer parecer o mau que abandonou a mulher grávida.
— Enganas-te. O Carlos nunca abandonaria o filho dele. Ela riu-se, genuinamente divertida. — Achas que ele quer lidar com fraldas e noites sem dormir?
Para isso há amas. Consegui libertar-me e abri a porta. — Estás doida. Sai para a esplanada da piscina à espera que o ar fresco me acalmasse.
A maioria dos convidados estava à volta do churrasco, mas a Raquel não tinha acabado. Seguiu-me e cercou-me perto da parte mais funda da piscina. — Sabes o que é mais engraçado? O Carlos acha-te fisicamente repugnante.
Disse-me que ver o teu corpo a mudar o nojo. Mal consegue tocar-te. — Para. — Disse que a tua necessidade o sufoca.
Todas as tuas perguntas sobre o quarto do bebé, a tua excitação com os nomes. Disse que o faz sentir preso. — Estás a mentir. — Minto?
Quando foi a última vez que te fez amor a sério, Jimena? Não aquela vez que cumpriu a obrigação. Não consegui responder. Tinham passado meses.
Disse a mim mesma que era normal. Ouvir aquilo, confirmado por ela, foi devastador. — Porque é que estás a fazer isto? — Porque existes.
Estás no meu caminho. O Carlos nunca se comprometerá totalmente comigo enquanto tu e esse bebé representardes as obrigações dele. Preciso que desapareças. Alguma coisa na maneira como disse «desapareças» fez-me recuar mais um passo.
Senti o calcanhar bater no rebordo. — Raquel, acho que devias ir-te embora. — Não me parece. Acho que tu é que devias ir-te embora.
Antes que pudesse reagir, estava mesmo à minha frente com as mãos nos meus ombros. Empurrou-me com força. Senti-me a cair para trás, o ar vazio debaixo dos pés, e depois a água fria atingiu-me como um muro de betão. O choque roubou-me o ar.
O vestido de maternidade começou a puxar-me para baixo, o tecido a enrolar-se nas minhas pernas como correntes. Tentei nadar, mas nunca fui boa nadadora. Grávida de oito meses, estava indefesa. O pânico tomou conta de mim.
Lá em cima, via a forma distorcida da Raquel à beira da piscina. Não pedia ajuda. Apenas olhava. A minha bebé.
O pensamento trespassou o terror. A minha filha, que dependia de mim, ia morrer comigo. Lutei com mais força, arranhando a água. As luzes da piscina começaram a desfocar-se.
Não podia acabar assim. Quando a escuridão começava a invadir a minha visão, senti uns braços fortes a rodear-me por trás. Alguém estava na água comigo. Puxou-me para cima em braçadas poderosas, e de repente rompemos a superfície.
Tossi, engasguei-me, mas estava a respirar. Nós estávamos a respirar. A minha bebé e eu. O homem que me segurava levou-me até ao bordo, onde outras mãos se estenderam para me puxar para fora.
— Chamem uma ambulância — gritou ele enquanto me colocava no chão da esplanada. Deitei-me no cimento quente a tossir água. Alguém me tinha posto uma toalha por cima, mas tudo o que sentia era o movimento na minha barriga. A minha bebé estava bem.
Nós estávamos bem. — Minha senhora, consegue dizer-me o seu nome? Era um paramédico que tinha aparecido ao meu lado. — Jimena.
Grávida de oito meses. — Pode dizer-me o que aconteceu? Procurei a Raquel, mas ela não estava lá. O Carlos estava ali, pálido e em choque, mas os olhos dele tinham mais enfado do que preocupação.
— Caiu — disse ele. — Foi um acidente. O homem que me salvou, agora sentado ao meu lado no fato caro encharcado, abanou a cabeça. — Eu vi tudo.
A mulher de vermelho empurrou-a de propósito. A cara do Carlos ficou branca. — Raquel — murmurei. — Foi-se embora — disse a Maya, com lágrimas nos olhos.
— Assim que caíste, disse que tinha uma emergência. O paramédico colocou-me numa maca, mas estendi a mão para o homem que nos tinha salvado. — Obrigada — sussurrei. — Salvou a minha filha.
Ele apertou-me os dedos suavemente. — Chamo-me Daniel. E vou certificar-me de que estão as duas em segurança. As horas seguintes foram um borrão de exames e monitores.
Os médicos garantiram-me que a bebé estava bem. Quiseram manter-me em observação. O Carlos visitou-me uma vez, ficou o tempo suficiente para me dar uma palmadinha na mão e murmurar qualquer coisa sobre o seguro. O Daniel voltou nessa noite, com flores e preocupação genuína.
— Como estás? — Confusa — admiti. — Talvez ajude saber que a zona da piscina tem câmaras de segurança. O coração parou.
— O que mostraram? — Exactamente o que eu vi. Ela empurrou-te de propósito. A polícia tem a gravação e estão a procurá-la.
— O Carlos não acredita. — O Carlos não quer acreditar. Há diferença. Nos dias seguintes, a verdade veio ao de cima.
A Raquel não era apenas a amante do Carlos; era uma vigarista com um historial de perseguir homens casados e ricos. A gravidez que dissera ter era uma farsa. A festa tinha sido a oportunidade dela para me eliminar. O Carlos ficou destruído.
Pediu-me perdão, disse que tinha sido manipulado. Mas o mal estava feito. Eu tinha visto quem ele era realmente. O divórcio foi rápido e justo.
O mais importante é que ele não lutou quando lhe disse que ia seguir em frente. Porque o Daniel se tinha tornado mais do que o meu salvador. Durante as semanas de recuperação, foi uma fonte constante de força e bondade. Quando a minha filha Sofia nasceu, dois meses depois, o Daniel estava na sala de espera com flores e um ursinho de peluche.
Segurou-a com a ternura de um homem que percebe o quão preciosa a vida pode ser. Um ano depois, o Daniel levou-me a uma piscina. Não aquela onde quase morri, mas uma piscina infinita com vista para o oceano. A Sofia estava com a minha mãe.
— Sei que pode parecer loucura — disse ele, segurando-me as mãos. — Mas aquele dia terrível em que te tirei da piscina foi o dia mais sortudo da minha vida. Porque te trouxe a mim. Ajoelhou-se.
O pôr do sol pintava a água de dourado. O anel era perfeito, o momento perfeito. — Sim — disse eu, com lágrimas a escorrer pelo rosto. — Sim, mil vezes sim.
A Raquel foi sentenciada a cinco anos de prisão por tentativa de homicídio e fraude. Os negócios do Carlos recuperaram do escândalo, embora tenha perdido clientes importantes. Mais do que isso, perdeu a oportunidade de ter a família que dizia querer.
Quanto a mim, fiquei com a família que nunca me atrevi a sonhar.


