A mãe soube logo que algo estava errado. A Anan não tinha ido à escola o dia inteiro. Ela ligou para casa, mas os sogros nem se mexeram. “O que é que estás a gritar? Uma miúda para onde é que pode…

A mãe soube logo que algo estava errado. A Anan não tinha ido à escola o dia inteiro. Ela ligou para casa, mas os sogros nem se mexeram. “O que é que estás a gritar? Uma miúda para onde é que pode...

A mãe soube logo que algo estava errado. A Anan não tinha ido à escola o dia inteiro. Ela ligou para casa, mas os sogros nem se mexeram. — O que é que estás a gritar?

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Uma miúda para onde é que pode ir? Volta já. Mas ela não voltou. A mãe procurou a noite toda, desesperada.

No dia seguinte, descobriu a verdade: os sogros tinham vendido a Anan para o campo, para ser noiva de um homem adulto. Por vinte mil reais. Ela sentiu o mundo a desabar. Mas não chorou.

Não ali. Foi a Jianing, uma estudante universitária que salvou a Anan durante a fuga, que lhe contou tudo. A miúda tinha saltado de uma carrinha em andamento. Jianing escondeu-a.

— Eles não pouparam o próprio sangue — disse a mãe, com a voz a tremer. — Porque é que não denuncia? — A polícia diria que é uma disputa familiar. Os seis milhões que os meus pais me deixaram?

Foram eles que roubaram. Quero cada cêntimo de volta. Jianing olhou para ela. — E como é que vai fazer?

A mãe sorriu, um sorriso frio. — O meu sogro. Ele é ganancioso, mulherengo. Desesperado por um herdeiro varão.

Tu vais seduzi-lo. — Mas eu…

— Não vais ter nada com ele. Só atraí-lo para a armadilha. Depois do plano, dou-te cem mil.

Suficiente para pagares a universidade inteira. Jianing hesitou, mas aceitou. Afinal, também estava a fugir de casa. O próprio pai queria vendê-la a um viúvo por vinte mil.

Nos dias seguintes, a mãe montou o esquema. Arranjou uma identidade falsa para Jianing — Shen Xian. Uma rapariga do interior, ingénua, que procura trabalho. O sogro mordeu o isco logo na primeira semana.

— Moça, se eu cuidar da sua comida, você faz mesmo tudo? — Faço qualquer coisa, tio. Ele contratou-a. Três mil por mês, mais alojamento.

Mas o que ele queria era muito mais. Enquanto isso, a mãe lidava com a outra: a Shudu, a amante do marido. A Shudu aparecera grávida, dizendo que era do Yunfan. Os sogros babavam-se.

Um neto varão. Finalmente. Mas a mãe sabia a verdade. O Yunfan tinha sido diagnosticado com azoospermia no ano anterior.

Não podia engravidar ninguém. — Esse filho não é dele — disse à Shudu, num sussurro. — Se os teus sogros descobrirem, estás morta. — O que é que queres?

— Uma parceria. Ajudas-me a tirar o dinheiro ao velho, e eu guardo o teu segredo. Ficas com três milhões do divórcio. Eu fico com o resto.

Shudu hesitou. Mas não tinha escolha. Aceitou. O sogro, cego pela ganância, mordeu todos os iscos.

A Shudu fingiu que os pais tinham ficado ricos com investimentos em antiguidades. Mostrou-lhe um suposto unicórnio de jade da dinastia Song. Disse que valia cinco milhões. — Investe connosco, pai.

Compras o unicórnio por três milhões, revendes lucro. O velho não resistiu. Pegou nas economias da família — os tais seis milhões da herança — e entregou tudo à Shudu. — Quando vender, dou-te quinhentos mil de comissão.

— Pode ficar descansado, pai. O dinheiro desapareceu. A Shudu, claro, nunca vendeu nada. O unicórnio era falso, feito na semana anterior.

O negócio era uma farsa. Mas o sogro não teve tempo de perceber. A mãe tratou de expor a verdade sobre a gravidez. Deixou cair um relatório médico antigo do Yunfan à porta do quarto dos sogros.

— Azoospermia — leu o velho. — Não pode ter filhos. Então a anan… e o bebé da Shudu…

Expulsaram a Shudu a pontapé. Ela fugiu, levando os três milhões.

Mas a tragédia não parou aí. O Yunfan desaparecera há dias. Ninguém sabia onde estava. Até que o encontraram: morto, estrangulado, num prédio abandonado.

A sogra culpou a mãe. — Foste tu! Tu e essa prostituta da Shudu! A polícia descobriu que a Shudu tinha contratado um homem, o Shen Feng, para sequestrar a mãe.

Mas o Shen Feng matara o Yunfan por engano. Ou talvez não. A mãe soube a verdade por trás das grades: a Shudu tinha armado tudo. Queria o dinheiro, queria o homem.

Mas o Yunfan, ao ser sequestrado, implorara ao Shen Feng para contar tudo à família. O Shen Feng, sem saber o que fazer, matou-o para o silenciar. A Shudu foi presa. A mãe também — por encobrir o crime.

Dois anos de prisão. Antes de ser levada, deixou a Anan aos cuidados da Jianing. A miúda fez a cirurgia ao coração. Recuperou.

O sogro, ao saber que o unicórnio era falso e que a mulher estava paralítica, teve um AVC. Morreu no hospital. A sogra ficou hemiplégica, presa a uma cadeira de rodas, dependente da mãe que um dia maltratou. A mãe cumpriu os dois anos.

Quando saiu, a Jianing esperava-a à porta, com a Anan ao lado. — Mamãe! A miúda crescera. Estava saudável, forte.

— Tia Bai, pensei em si todos os dias. A mãe abraçou-a. Depois olhou para a Jianing. — Obrigada.

Por tudo. — Não tem de quê, irmã. Entre nós, não é preciso. Ela sorriu.

Olhou para a estrada à sua frente. — Sabes, antes eu pensava que o lugar da mulher era servir o marido e aguentar tudo calada. Até ser traída, agredida, ver a minha filha vendida. Aí percebi: ceder nunca traz respeito.

Só faz com que os outros pisem na tua bondade. — E agora? — perguntou a Jianing. — Agora vamos viver.

Do nosso jeito. Cada passo conta. A Anan pegou-lhe na mão. — Mamãe, quero ser como a senhora quando crescer.

— Não, Anan. Sê melhor do que eu. Muito melhor.

E as três caminharam juntas para casa.