—Trinta e oito semanas. Tudo normal. —A médica sorriu. —Vocês são tão bonitos.

O bebé vai ser lindo. Ele agradeceu, gentil. Tão gentil. A mão dele mal roçou o meu ombro quando saímos.
Irmão Tinglan, tenho medo. Não tenhas medo. Estou aqui. Mentira.
Nunca esteve. Desde os vinte anos que o via na quadra de basquete. Aos vinte e cinco tomei a iniciativa. Dei noventa e nove passos para chegar até ele.
Ele nunca deu um único passo na minha direção. Porque o coração dele já estava ocupado. Sempre esteve. Song Si voltou.
Grávida. Ele trouxe-a para casa, disse que eram só amigos. Eu também estava grávida. Ele não sabia.
Nunca perguntou. —Chefe, marca um aborto para mim. Daqui a sete dias. Desliguei.
A barriga pesava. O coração, mais ainda. Inscrevi-me no programa de intercâmbio médico em Paris. Começa em duas semanas.
Perfeito. Ele chegou a casa tarde, como sempre. Deixou um presente em cima da mesa. Um colar qualquer.
Nem abri. —Querida, desculpa. A companhia aérea teve uma reunião de emergência. —Está bem.
Não estava. Mas já não importava. No hospital, no dia do aborto, ele apareceu. Não por mim.
A Song Si estava com enjoos. Ele veio perguntar o que uma grávida podia tomar. —Grávidas não podem tomar qualquer remédio —respondi. —Mandei umas recomendações.
Ele nem reparou no meu jaleco. Nos meus olhos. Em nada. A Song Si apareceu no hospital.
Grávida, sorridente. Ele foi com ela para a urgência. Fiquei sozinha na maca. —Doutora Wen, o bebé está saudável.
Não quer falar com o pai? —Não. O pai já morreu. Menti.
Mas a verdade era pior. Fiz o aborto. Hemorragia. Quase morri.
Ele soube? Não. Estava a ouvir a Song Si. —Irmão Tinglan, a minha data prevista está a chegar.
Vais ficar comigo, não vais? —Vou. Naquela noite, ele chegou a casa. A minha mala estava pronta.
—Vou para Paris. Programa de intercâmbio. —Quanto tempo? —Não sei.
Beijou-me na testa. Distraído. —Divertete. Peguei no voo que ele pilotava.
Sentei-me na fila 14. Ele passou pelo corredor, cumprimentou os passageiros. Olhou para mim. Não me reconheceu.
Desembarquei em Paris. Respirei fundo. Três anos. Quando voltei, o hospital estava igual.
Eu não. Ele apareceu na portaria. Magro, olheiras. —Vanvan.
—Senhor Jang. —Eu errei. Não sabia que estavas grávida. Os produtos que comprei…
eram para ti. A Song Si… cortei tudo. Eu amo-te.
És tu. —Reconhecer isso agora, não achas um pouco tarde? Ele calou-se. —Casaste comigo para a provocar.
Cada restaurante, cada gesto, era para ela. Eu era o palco. Agora que ela não interessa, queres o palco de volta? —Não.
Foste tu. Sempre foste tu. —Enganas-te. Mesmo sem ela, o nosso casamento já tinha acabado.
Porque eu era a única a remar. Tirei o anel. Devolvi. —Desaparece da minha vida.
Ele não desapareceu. Apareceu no hospital, no supermercado, no café. Insistiu. Eu fechava-lhe a porta.
A minha mãe marcou um encontro. —Filho da minha amiga. Bonito, boa família. Amanhã, às três.
—Mãe… —Decidido. O restaurante era bonito. Ele entrou.
Parou. —Tu? Era o homem cujo carro eu tinha riscado semanas antes. E o mesmo que me ajudou no avião quando uma grávida começou o trabalho de parto.
—Desculpa pelo carro. Não foi de propósito. Ele riu. —Foi o dia em que salvaste uma grávida.
Fiquei impressionado. Pediu o meu prato favorito. Como é que sabia? —Se não soubesse disto, já tinha falido.
Jantámos. Foi fácil. Leve. Ele chamou-se Ting Mu.
Quando saímos, o Jang Tinglan estava à espera. —Quem é este? —Não é da tua conta. —É da minha conta.
Ainda és minha esposa. —Já não. Ele agarrou-me o braço. Ting Mu afastou-o.
—Ela não quer falar contigo. —Isto é entre mim e a minha mulher. —Já não és nada dela. Tinglan olhou para ele.
Depois para mim. —Vanvan, nunca pensei em divorciarme. —Pensaste ou não, já estamos divorciados. Não voltes a perturbar a minha vida.
Ele foi-se. Não sem antes me deixar uma caixa. Diamante rosa. O presente de aniversário que prometeu.
Já não o queria. Ting Mu ficou ao meu lado. —Estás bem? —Só a mão dói um bocado.
Enquanto o coração não doer, está tudo bem. Levei-o a casa. Ele fez questão. —Da próxima vez não bebas tanto.
E não ligues para motoristas aleatórios. —Foi sem querer. —Se fosse para outra pessoa, ias com ele? —Claro que não.
—E se o teu exmarido se ajoelhar e implorar? —Isso só me irritava mais. —Então, se outra pessoa quiser conquistarte, vais rejeitálo? —Depende.
Se não gostar dele, sim. —E tu não gostas de mim? —O quê? —Wen Van, aceitas tentar ficar comigo?
Fiquei sem resposta. Ele esperou. —Sim. Na semana seguinte, a Song Si foi exposta.
Fotos, mentiras, a indenização milionária. Ela chorou nos trending topics. O Tinglan foi arrastado. A companhia aérea pediu-lhe a demissão.
Ele tentou falar comigo outra vez. —Vanvan, eu estava preocupado com a minha irmã. A Song Si… expliquei tudo.
Perdoame. —Já não há nada a perdoar. Afastáme. No hospital, ele apareceu à saída.
Ting Mu estava a esperarme no carro. —Vim buscar-te. —Não é aniversário nenhum. —Já está perfeito.
Falta pouco para ficar ainda mais. Sorriu. —Hoje pode ser o começo de um dos nossos aniversários. Entrei no carro.
Ele fechou a porta. O motor arrancou. Não olhei para trás.


