Ela abriu a carteira do marido só para devolver o telemóvel. Em vez disso, encontrou um cartão do Hotel The Yatman, no Porto. Reserva para duas pessoas. Suite presidencial. Atrás, uma nota escrita…

Ela abriu a carteira do marido só para devolver o telemóvel. Em vez disso, encontrou um cartão do Hotel The Yatman, no Porto. Reserva para duas pessoas. Suite presidencial. Atrás, uma nota escrita...

Gabriela abriu a carteira do marido para devolver o telemóvel e encontrou um cartão do hotel The Yatman, no Porto. Reserva para duas pessoas, suite presidencial. Atrás, uma nota manuscrita com cheiro a perfume doce: *Mal posso esperar por esta noite, meu amor. Vai ser inesquecível.

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L. *

As mãos tremeram. Abriu a localização partilhada no telemóvel — Duarte estava no hotel desde as três da tarde. A festa só começava às oito.

Ligou ao sócio, Miguel, e pediu o contacto de um detective. Duas horas depois, o detective confirmou: Duarte estava acompanhado por uma mulher jovem, loira, olhos azuis, vestido justo. Entraram na suite às 15:30. Gabriela leu a mensagem três vezes.

Depois limpou as lágrimas com a manga, abriu o computador e começou a preparar os papéis do divórcio. Trabalhou a noite inteira. De manhã, o detective enviou as fotos: Duarte e a loira a entrar no hotel, na festa de mãos dadas, a beijarem-se no terraço à meia-noite. Gabriela imprimiu tudo em papel fotográfico de alta qualidade.

Quando Duarte chegou a casa no sábado, radiante, ela esperava-o sentada à mesa de jantar, com a pasta preta à frente. — Senta-te — disse. — O que se passa? — ele tentou sorrir.

Ela abriu a pasta e espalhou as fotos. Petição de divórcio litigioso por adultério. Guarda exclusiva do filho. Pensão de alimentos e compensatória.

Divisão de bens. A casa ficava para ela. Duarte ficou branco. — Como conseguiste?

— Deixaste a carteira no meu escritório. Contratei um detective. Tenho tudo. Ele tentou aproximar-se.

Ela afastou-o com um olhar de gelo. — Tens 72 horas para assinar. Se não o fizeres, as fotos vão para os teus sócios, clientes e imprensa. — Não farias isso.

— Testa-me. Quando ela saiu, Duarte ficou sozinho com os papéis. O ar condicionado zumbia. Nunca tinha reparado.

Luana Ferreira, 25 anos, brasileira, hospedeira de eventos. Conheceu Duarte num salão automóvel em Abril. Sabia que ele era casado. Não se importou.

Para ela, ele era diversão, dinheiro, hotéis de luxo. Nada sério. No domingo, Duarte apareceu em casa da sogra para ver o filho. Pilar fechou-lhe a porta na cara.

Lá dentro, ouviu Sebastião dizer que não queria vê-lo. Encontrou-se com Luana num hotel barato. Contou-lhe tudo. Ela ouviu de braços cruzados.

— Não era sério, Duarte. Era diversão. — Amo-te. Ela riu-se.

— Não sabes sequer a minha comida favorita. A tua mulher é um mulherão. Fizeste merda. E foi-se embora.

A empresa afastou-o da imagem pública. Os sócios exigiram que vendesse a sua participação. Recebeu 200 mil euros, menos impostos e dívidas. Sobraram 120 mil.

Trocaram-lhe o Mercedes por um Ford Focus usado. Gabriela levou Sebastião a um psicólogo infantil. O miúdo passou semanas sem querer falar com o pai. Na primeira visita, três meses depois, Sebastião gritou:

— Um pai não mente.

Um pai não destrói a família. Duarte desabou no chão. — Não tenho desculpa. — Porque fizeste aquilo?

— o miúdo tremia. — Não era suficiente para ti? — Eras a melhor coisa da minha vida. — Pois não parece.

Quando Sebastião saiu, Duarte ficou no apartamento vazio, a olhar para o telemóvel. Luana tinha-o bloqueado de tudo. O divórcio foi assinado numa quarta-feira de manhã. Gabriela levantou-se, guardou a sua cópia e disse apenas:

— Adeus, Duarte.

E saiu. Na noite de Natal, o chalé da Quinta da Marinha estava cheio de luzes, risos e cheiro a cabrito. Gabriela preparava o jantar com a mãe, Pilar. Sebastião punha a mesa.

Miguel, o sócio de Gabriela, estava lá também. Nada oficial ainda, mas havia algo. Um beijo suave na cozinha enquanto a música de Natal tocava. — Gosto do caos — disse Miguel.

— É melhor que o silêncio. Depois do jantar, Gabriela deitou Sebastião. — Mãe, tu és feliz? — Sim, querido.

E tu? — Sim, mesmo que o pai não esteja. Abraçaram-se. Duarte passou o Natal sozinho no apartamento do Cacém.

Comeu atum com pão de forma, bebeu uma cerveja morna. Ligou para Sebastião — ninguém atendeu. Ligou para Gabriela — ela rejeitou e escreveu: *Não ligues hoje. Deixa-nos em paz.

*

Ele deixou o telemóvel na mesa. Não havia lágrimas. Só a certeza de que aquilo era o que merecia. No terraço do chalé, Gabriela bebeu um copo de vinho do Porto.

Olhou as estrelas. Um ano antes, a sua vida tinha explodido. Agora estava reconstruída. Não perfeita, mas inteira.

Ergueu o copo, brindou em silêncio. Depois entrou, fechou a porta e foi dormir tranquila.