Ela gastou todo o dote para salvar o marido na guerra. Alimentou soldados, vestiu tropas, sustentou a mansão sozinha. Quando ele voltou vitorioso, ela esperava gratidão. Ele trouxe outra: uma…

Ela gastou todo o dote para salvar o marido na guerra. Alimentou soldados, vestiu tropas, sustentou a mansão sozinha. Quando ele voltou vitorioso, ela esperava gratidão. Ele trouxe outra: uma...

—Patrão, cem mil de prata já foram para o Forte Hudion. Cem mil cargas de mantimentos seguiram para o Forte Ruong. Cem mil peças de roupas de inverno também chegaram ao Forte Ruong. Ela ouviu o relatório em silêncio.

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O marido estava na guerra, e ela administrava a mansão, sustentava a família com seu dote, esperava. Agora ele voltava vitorioso. —Quando o Marquês voltar, se souber que foi a senhora quem o apoiou pelas costas, certamente vai valorizá-la ainda mais — disse o servo. —Marido e mulher são um só — respondeu ela, serena.

—Tenho alguns bens modestos. É natural que eu ajude. Só espero que ele volte em segurança. Ela não sabia que a segurança que ele traria seria contra ela.

—Você quer que eu me rebaixe a concubina para abrir espaço para sua amante? — A voz dela ainda não tremia. —Xiang não é uma amante. É minha esposa, casada formalmente na fronteira norte.

General valente do Grande Zou. Se você fosse sensata, já teria se rebaixado por si mesma. —

Ele nem a olhava. —Comparar você com ela é um insulto para ela.

Ela lembrou-o da promessa na noite de casamento: *Eu, Zou, nunca vou decepcioná-la nesta vida. *

Ele desviou o olhar. —Esqueça essas palavras. —

No banquete da mansão, ele anunciou a todos que se casaria com a filha do Duque Yang Angu, a general Xu Xiang.

Disse que a esposa atual, ciente de sua posição humilde, já havia se degradado a concubina. A sogra confirmou. A irmã dele sorriu. Ela apareceu mesmo assim.

—Eu sou a matrona desta mansão. Por que não posso vir? —Você é tão, tão amargurada — cuspiu a sogra. —Teve dois anos de vida tranquila por caridade.

Agora Xiang chegou. Lembre-se do seu papel. Xu Xiang a encarou de cima. —Você, que mal sabe ler, trancada nesta mansão, se for obediente, terei piedade.

A resposta veio calma, cortante, pública. —Meu avô foi professor imperial de três dinastias. Metade dos ministros da corte foram discípulos dele. Aos sete anos eu já lia os Anais de Primavera e Outono.

Se sou uma mulher estúpida, metade da corte também é. Ela apontou para Xu Xiang. —Você leu livros, viu desertos, matou inimigos. Deveria ser exemplo para as mulheres do mundo.

Mas com que direito humilha as que vivem enclausuradas? Elas não escolheram isso. São amarradas por rituais. Se não fosse por isso, talvez fizessem mais que você.

O silêncio caiu pesado. Xu Xiang tentou revidar. Ela não deixou. —Já que despreza tanto as mulheres do harém, por que quer se casar?

Vai acabar igual a nós, rebaixada. Isso não mancharia sua nobre identidade de general? Então ela ergueu a flecha que trouxera consigo. —Yunzou, Xu Xiang.

Vocês dois tiveram relações antes do casamento. Tiveram um filho ilegítimo. Forçaram a esposa a se tornar concubina. Hoje lhes dou um documento de separação.

Ele riu. Ela atirou. A flecha cravou-se na mesa à frente dele. —Tem coragem de assassinar o próprio marido em público?

—Isso é retribuição por terem humilhado a mim e minha família. —

Não era apenas um ataque de ciúmes. Ela sabia de tudo. O filho ilegítimo.

O plano para que ele fosse reconhecido como herdeiro. Xu Xiang desesperada para legitimar o menino. —O Grande Zou valoriza a origem — disse ela a Birre, sua criada de confiança. —Se Yunzou quer receber a mãe e o filho com grande pompa, vamos satisfazê-los.

Amanhã os feitos vergonhosos desse casal serão conhecidos por toda Xingjin. —

Naquela noite, enquanto arrumava as coisas para partir de volta à residência da família Tan, Birre hesitou. —Senhorita, quando se casou, foi com cerimônia grandiosa. Uma noite não dá para levar tudo.

—Então deixe o resto para a família Xia. Como fim deste relacionamento. —

Xu Xiang não se conteve. No dia seguinte, no palácio, armou uma armadilha.

Mandou uma serva dizer que sabia onde estava a mãe de Tã, desaparecida há anos. Ela seguiu a serva até um pavilhão afastado. A porta se fechou atrás dela. Um guarda bêbado avançou.

Ela lutou, mas a droga já entrava em suas veias. O corpo queimava, as pernas fraquejavam. Quando o imperador arrombou a porta, ela estava no chão, pálida, trêmula, mas ainda consciente. Ele a pegou nos braços.

—Chame o médico imperial. Agora. —

A notícia se espalhou como pólvora: a esposa do Marquês foi encontrada com o imperador em um palácio desolado. Adúltera.

Sedutora. Yunzou apareceu com sua gente para “capturar os adúlteros”. Encontrou apenas o imperador. —Sua Majestade, o que faz aqui?

—Você quer tomar meu lugar, interferir nos meus movimentos? — O imperador não levantou a voz, mas o salão inteiro silenciou. Yunzou recuou. —Ouvi dizer que minha esposa…

—Sua esposa? — O imperador sorriu, frio. —Está sugerindo que estou tendo um caso com sua esposa neste palácio desolado? Xu Xiang, atrás, empalideceu.

O plano seguinte foi mais sujo. —Informo a Vossa Majestade — disse Yunzou, na corte, com a voz cheia de fingida solenidade. —Desejo denunciar minha esposa, Tã, por conspirar com inimigos e trair o país. Ele apresentou cartas.

Disse que a caligrafia era idêntica à dela. Trouxe uma testemunha, um guarda que jurava ter visto a caravana dela entregar mapas de defesa aos bárbaros. —Cem mil soldados mortos por causa dela — disse ele. O imperador a convocou.

—O que tem a dizer? —As cartas foram escritas por mim — respondeu ela. —O destinatário era um agente secreto infiltrado no território dos bárbaros. Troquei mapas de defesa deles.

Foi por isso que, depois daquela batalha, não perdemos mais. Silêncio. —Se não acredita — continuou ela —, pergunte aos soldados da época se receberam os mapas. Então virou-se para Xu Xiang e o pai dela, o primeiro-ministro Xu Jin.

—Mas eu também acuso Xu Jin de usar o poder para ganhos pessoais, conspirar com tribos externas e colocar em risco a vida de cem mil soldados. E de incriminar falsamente a casa do Grão Mestre Tan. —Audaciosa! — gritou o velho.

Ela estendeu a mão. Birre entregou um maço de documentos. —Correspondências com o Canato do Norte. O selo tem o nome de Xu Jin.

E este mapa de defesa que ele entregou aos bárbaros, causando a derrota de nossas tropas. O imperador examinou os papéis. A filha do ministro, Xu Xiang, caiu de joelhos. —Pai, você realmente fez isso?

Xu Jin emudeceu. —

O veredito veio rápido. —Por ordem do imperador: o ministro Xu Jin, por colaborar com inimigos e prejudicar milhares de soldados, terá sua família executada. O Marquês Yunzou, por incriminar um oficial meritório, terá sua família exilada ao norte.

Nunca poderão retornar à capital. A mansão da família Xia foi esvaziada. Ela viu os carregamentos de seu dote passarem pelos portões, um a um. Tudo que sustentara aquela casa por quatro anos estava indo embora.

Yunzou, algemado, passou por ela. —Você fez isso de propósito — sussurrou. Ela não respondeu. No portão, o imperador a esperava.

—Agora você está livre. Ela olhou para a mansão vazia, para as ruas de Shengjin, para o horizonte além dos muros. —Sim — disse ela.

—Agora estou.