Ela encontrou o que não devia. O relatório de um aborto espontâneo, datado de junho de 2019 – o mês em que ele estava tão ocupado no hospital. O mês em que ela perdeu o bebé sozinha, enquanto ele…

Ela encontrou o que não devia. O relatório de um aborto espontâneo, datado de junho de 2019 – o mês em que ele estava tão ocupado no hospital. O mês em que ela perdeu o bebé sozinha, enquanto ele...

O que é isto? Ela encontrou o relatório. O papel tremeu nas suas mãos enquanto lia as palavras: aborto espontâneo. Junho de 2019.

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O mês em que ele tinha estado tão ocupado no hospital. O mês em que ela perdeu o bebé sozinha. E ele nunca soube. Nunca soube que ela tinha estado grávida.

Nunca soube que ela tinha perdido o filho enquanto ele estava noutra cama. Zi fechou os olhos. As imagens vieram: a mão dele a acariciar outro cabelo, os lábios dele a sussurrar promessas a outra mulher, enquanto ela, em casa, a segurar a barriga vazia, a ouvir o silêncio. Ela abriu a gaveta.

Lá dentro, as fotografias do casamento. O sorriso dele, o vestido branco, a promessa de uma vida inteira. Ela pegou num isqueiro. O fogo comeu o papel, depois a moldura, depois a cara dele.

Ela queimou a identidade. Apagou os números. Deixou a aliança em cima da mesa. E desapareceu.

Ele chegou a casa nessa noite como se nada tivesse mudado. Sentou-se no sofá que ela tinha escolhido, olhou para a parede vazia onde o quadro dela tinha estado, e não viu nada. O quarto estava escuro. A cama estava fria.

– Zi? Silêncio. Ele pegou no telefone. Chamou.

Ninguém atendeu. – Não vai ter acontecido nada, pois não? – murmurou. A amante encostou-se a ele, a mão a deslizar pelo seu peito.

– Ela é só uma dona de casa, não vai perder-se. Bebe o chá que eu fiz para ti. Ele afastou-a. – Não tenho tempo.

– Mas eu preparei com as minhas próprias mãos… – Já disse que não. Os olhos dela endureceram. – Andas estranho.

– Ela não se sente bem. Preciso de ir vê-la. A amante riu-se, um som fino e cortante. – Não vai morrer.

Ele levantou-se. A cadeira rangeu. – Zi é a minha esposa. Tu não tens o direito de falar dela.

Ela ergueu o queixo. – E tu tens-me a mim. Não sou suficiente? Ele parou.

Virou-se. O rosto dele, que ela pensava conhecer, estava gelado. – Tu és uma ferramenta de reprodução que arranjei para ela. Nunca te compares à Zi.

Ela abriu a boca. Fechou. As palavras ficaram presas. Ele saiu.

A porta bateu. Na manhã seguinte, o quarto estava vazio. A cama estava feita. A secretária estava limpa.

As fotografias tinham desaparecido. O cheiro dela estava a evaporar-se. Ele percorreu os compartimentos como um animal encurralado. Abriu armários.

Revistou gavetas. Nada. – Senhor, foi a própria senhora que trocou as coisas… – a empregada hesitou.

– Ela disse que um novo ambiente trazia um novo humor. – E tu não me disseste nada? – Achei que o senhor soubesse. Ele parou.

Numa gaveta do criado-mudo, um bilhete. Ela prometera-lhe um presente. O papel tinha um número de conta apagado. Um endereço de e-mail que já não existia.

Uma assinatura a lápis: Adeus. – Ela está a viajar – disse ele, em voz alta. – Está a tirar umas férias. Vai voltar.

Os dias passaram. As noites foram piores. Ele despediu a amante. Expulsou-a do hospital, da rua, da cidade.

– Quero que desapareças – disse-lhe, num estacionamento, a chuva a escorrer-lhe pelo casaco. – Nunca mais quero ver a tua cara. Ela agarrou-lhe no braço. – Xingzi, eu sei que errei.

Deixa-me ficar. Aceito ser a sombra dela. Ele cuspiu as palavras. – Tu não és digna de lhe beijar os pés.

E mandou-a para um hospital psiquiátrico. Mas Zi não voltou. Os números falsos apareciam. Os vigaristas, as pistas falsas.

Um voo para a Noruega. Uma mulher chamada Angel. Um desenho na parede de um quarto alugado. Ele seguiu o rasto.

Chegou a uma casa. Bateu à porta. – A minha inquilina chama-se Angel – disse o senhorio. – Não é a sua esposa.

– Ela pintou isto? – Ele mostrou uma fotografia. – Este quadro, foi ela? O senhorio olhou para o desenho.

– Foi. – É ela. Mas não era. Outra vez.

Outro beco. Ele começou a beber. O hospital dele, o império que construíra, tudo ficou para trás. O quarto escuro, a garrafa vazia, o telefone mudo.

– Xingzi, por favor, come qualquer coisa – a voz da mãe dele era um eco distante. – Vais morrer. – Talvez ela volte para o meu funeral. – Xingzi!

– Se morrer, ela perdoa-me. O pai dele entrou no quarto, os olhos vermelhos. – Se tens tanta certeza, vai à televisão. Pede desculpa na frente do país inteiro.

Ela vai ver. Ele levantou a cabeça. A câmara filmou-o de joelhos, o rosto magro, o olhar vazio. – Zí, eu errei.

Volta. Por favor. O país inteiro viu. Comentários choveram.

Canalha. Traidor. Sem vergonha. Mas ele não desistiu.

O número pessoal dele ficou disponível. As chamadas chegavam: pistas falsas, ameaças, insultos. Dez milhões gastos a perseguir fantasmas. A depressão chegou silenciosamente, como uma maré negra.

O diagnóstico veio depois de ele desmaiar na rua:

– Depressão severa. Tendências autodestrutivas. – Ele vai tentar suicidar-se? – perguntou a mãe, as lágrimas a escorrer.

A resposta veio nos olhos do médico. Ela sobreviveu. A morte do filho. Depois, o pai dele ajoelhou-se.

– Por favor, Zí. Volta para o ver. Ele está a morrer. Ela recebeu a mensagem na Noruega.

O papel da assinatura de divórcio tremia-lhe nas mãos. Ela olhou para as montanhas cobertas de neve. A vida que construíra, tão pequena e tranquila. O café de manhã, a luz no estúdio, as conversas com o senhorio.

E depois o bilhete. Os pais dele, sempre gentis. Sempre carinhosos. Ela fechou os olhos.

– Vou voltar – disse. – Mas não para ficar. Cumpriu a promessa. No dia do encontro, ele estava irreconhecível.

O médico bonito que conquistara os ecrãs era agora um homem magro, de olhos fundos e mãos trémulas. -Estás de volta – sussurrou ele. – Pára. – Ela manteve a distância.

– Só vim por causa dos teus pais. – Já acabei com ela. Já botei o filho dela fora. Está num hospício.

– Isso não muda nada. – O que é que eu posso fazer? – Assina o divórcio. Ele avançou para ela.

– Não consigo viver sem ti. Ela recuou. – Devias ter pensado nisso quando lhe estavas a comprar pulseiras de diamantes. – Ela não significava nada!

– Eu queria ter um filho teu. – A voz dela partiu-se. – Engravidei. Perdi o bebé enquanto tu estavas com ela.

Tu nunca soubeste. Nunca quiseste saber. O grito dele ecoou pelo corredor. – Eu não sabia disso, Zí.

– Pois não. E agora já sabes. Assina o divórcio. Ele assinou.

Na sala vazia, depois do tribunal, ele pediu um último pedido. – Vamos ver um filme juntos. O nosso primeiro encontro. Ela riu-se, sem humor.

– Achas que isso vai mudar alguma coisa? – Não. Mas preciso de uma despedida. Ela concordou.

O cinema estava vazio. O filme passou. Eles não disseram nada. Quando saíram, uma mulher avançou.

Uma faca. Bai. – Tu, sempre tu – gritou ela. – Ele está obcecado.

A única maneira de ele me ver é se tu desapareceres. A lâmina brilhou. Zi não viu a dor. Só o corpo dele a abraçá-la, a protegê-la.

O sangue escorreu-lhe pelas costas. – Zí – murmurou ele. – Agora perdoas-me? Ela olhou para o sangue nas suas mãos.

– Por favor. – Ele tentou sorrir. – Por favor. A ambulância chegou.

Os médicos levaram-no, a respiração curta, os olhos a fixarem-se nela até ao último momento. Ela esperou. As horas passaram. O médico saiu da sala de operações.

– O Dr. Gu sobreviveu. Mas o cancro dele está terminal. Tem dias, talvez semanas.

Ela entrou. Ele estava deitado, os olhos a brilhar. – Zí? – Estou aqui.

– Perdoas-me? Ela olhou para ele. Para o homem que amara. Para o homem que a traíra.

Para o homem que salvara a vida dela. – Se aguentares até ao próximo mês – disse ela, devagar – e vieres ao meu casamento, perdoo-te. Ele fechou os olhos. – Se pudesse recomeçar.

– Não podes. Ele assentiu. O sol entrou pela janela. Ela saiu.

Lá fora, o céu estava limpo. E o mundo continuava a girar.